Friday, October 19, 2007

 

O rapaz, a moto e o medo.

Passou por mim pouco depois de Vendas Novas.
Lembro-me de ter pensado que ia muito depressa para o traçado da EN 114.
Está bem, a maior parte do percurso são rectas.
Mas há lombas, há curvas, há solavancos no alcatrão, há camiões, há outras coisas inesperadas que levam a moderar a velocidade.
Mas ele nada.
Avançou por ali como se o mundo fosse já acabar e não tivesse muito tempo para gozar a vida.

Voltei a encontrá-lo pouco antes de Montemor-o-Novo.
Primeiro foram as luzes dos carros que vinham no sentido contrário.
Luzes de aflição, o medo estampado nos máximos com que eles me desviavam da via agora estreita demais para dois carros ao mesmo tempo, o medo da mudança de mão de trânsito, que numa estrada movimentada é sempre um risco.
Depois foi um ajuntamento. Carros e pessoas que tinham saído dos carros e estavam agora a pé juntavam-se na estrada.
Aproximei-me e vi que o ajuntamento rodeava com um ar angustiado um espaço delimitado do chão.
Só podia ser o que era. Ao chegar lá vi o rapaz da moto. Deitado no chão, ainda de capacete, blusão de cabedal branco, de barriga para cima.

Como nota de alívio vi-o mexer um braço, o esquerdo, e falar com as pessoas que o rodeavam. Pelo menos falava. Mas deitado, sempre deitado.

Ainda antes de chegar a Montemor-o-Novo a ambulância rasgou o ar com os seus gritos de aflição.
E os carros. Todos tão devagar. De medo.

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