Thursday, October 11, 2007

 

Ainda a miopia

De repente o pano da mesa de bilhar começou a encurvar-se.
Arredondou suavemente como o ventre de um modelo de lingerie exposta num painel publicitário na beira de uma rua ensolarada.
O verde do pano arrelva-se de contente, enrosca-se e ronrona.
Os buracos da mesa de bilhar transformam-se em buracos de campo de golfe.
Carruagens de Metro encomboiam-se na paisagem, entrando e saindo pelos buracos do relvado da esquerda para a direita.
De vez em quando a sensação de que falta um pedaço da cena, que algo terá sido comido por um piscar de olhos ou que um pássaro muito rápido, invisível de tão rápido, mergulhou e aparou no bico um comboio, levou-o consigo no céu laranja e cinzento até ao Sol, onde tem o ninho. Vê-se um comboio a sair de um buraco mas já não se o vê a entrar no próximo.
Flâmulas escorrem a assinalar os buracos, cheias de maus pensamentos.

Ao fundo, à direita, um bando de anjos aguarda soturno a chegada do Metro.
Têm chapéus de coco, guarda-chuvas e uma pasta na mão esquerda. As asas foram diligentemente aparadas e engomadas. Cheiram a manhã cedo.
Destacam-se no contra-luz em que foram recortados de mãos dadas em harmónio.
A miopia não lhes permite ver o destino do Metro no écran da estação. Arriscam um à sorte.
Como não são criaturas com destino certo qualquer destino lhes serve.
Prendem as cordas que trazem à cintura à última carruagem e mergulham nas entranhas da terra.
Vastidões cinzentas aguardam-nos mergulhadas na penumbra.
Vão-se os olhos habituando e eles, pés assentes nos carris, deslizam presos por cabos, sulcando as trevas e deixando atrás de si um rasto de espuma branca.
A espuma amarelece com o tempo e acaba por se soltar. Parte também ela para o ninho do pássaro que se esconde na sombra por detrás do Sol.

Às vezes tudo empalidece.
O som das coisas é amortecido por uma caixa de algodão doce.
Um quebra-luz impõe-nos uma espécie de escuridão sonora.
Um fado é murmurado pelos anjos em coro .
Estes têm agora a cor de cera e continuam a esquiar agarrados ao Metro. Nas profundezas. Uma estação aproxima-se e sopra-lhes um raio de luz.
Não o conseguem ver, entretidos que estão a segurar-se aos cabos que os prendem ao comboio.

Comments:
Esperava-te. Ansioso,pode dizer-se. Faz-se tarde, em todos os sentidos.
 
Tarde.
Não há demasiado tarde.
Às vezes o cedo demora mais um bocadinho. Na cama. Com preguiça. Como nas manhãs de Inverno.
Não há tarde.
Às vezes o cedo aparece já o Sol vai alto.
Mas não é tarde.
Há tempos próprios.
 
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