Saturday, September 02, 2006

 

A Torre da Glória XVIII, A Carreira

Tinha medo do que sentia em si.
Tinha vergonha.

Não teve muito tempo para reflectir sobre o travo amargo que o gosto da vergonha lhe deixava na boca porque a mulher da vassoura o chamou.
Explicou-lhe o que tinha que fazer a partir daquele momento. As suas novas funções.

Nada de complicado. Agora era funcionário público. Competia –lhe em geral obedecer ao que lhe ordenava a da vassoura e em especial recrutar rapazes para os gangs e levá-los a praticar saltos ilegais.

Não achou estranho, a vida é assim.
Começou logo que pode. Com a sua bolsa, as pedras e demais artefactos partiu à conquista do quotidiano.

Reuniu jovens.
Fazia-os saltar dos prédios selvagens que cada vez mais se ofereciam livres nas avenidas. Fazia-os esborrachar-se no chão como couves rejeitadas nos caixotes do lixo dos supermercados. Atraía-os com o perfume da novidade. A outros seduzia-os com a antevisão de uma morte gloriosa, antes que o tempo tivesse tempo de lhes poluir a juventude e envelhecê-la em cascos de cinismo.

Cumpria a quota. Superava-a. Ganhou posição, prestígio, poder.
Já não organizava só mortes clandestinas.
O Festival da Juventude, a celebrar anualmente na Primavera das vidas ceifadas antes do Verão, era sua responsabilidade.
Os putos das escolas passaram a ser também seu alvo.
Um deles, uma cara vagamente familiar, antes de se atirar da Torre abaixo olhou para si como se lhe fosse oferecer um autocolante de um bolicao.

Mais poder. Começou a ser consultado aquando das grandes ocasiões, aquelas de que se espera uma taxa de mortalidade elevada. A mulher da vassoura tratava-o cada vez melhor.

Não era só ele que se sentia crescer.
O Salto generalizava-se.
Se dantes apenas uma parte minoritária da população da cidade saltava hoje o abismo começava a atrair mesmo os de quem não se costumava esperar tanta humanidade.
Membros da Direcção do Município, dos Sindicatos, das demais corporações.

A morte por salto da mulher da vassoura surpreendeu-o.
Já o salto de mãos dadas da mãe e da irmã não.

Ganhava mestria no ofício de matar por procuração, de instilar em peitos bravos a necessidade de os abrandar.
Chegava ao fim do dia com a satisfação de ter feito alguma coisa.

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