Wednesday, September 13, 2006

 

A Torre da Glória, XIX, A Morte

Quando inevitavelmente chegou a membro da direcção da cidade verificou que as reuniões do conselho de administração eram muito pouco concorridas. E cada vez o eram menos.
Também os membros da vereação saltavam da Torre.

Ao passar nas ruas da cidade ao volante do seu automóvel (o motorista saltara também ele) de cada vez via os semáforos menos concorridos.
O sinal vermelho já não atraía filas de carros parados uns atrás dos outros. Às vezes as próprias luzes verdes tinham que aguardar pacientemente que algum carro quisesse passar.
O problema não era a falta de carros, era a falta de pessoas, quase todas saltavam e deixavam os semáforos às moscas.
Já não havia quem limpasse os corpos por debaixo da torre. Já não havia transportes públicos. Os serviços da cidade falhavam e já não havia quem reparasse os aparelhos, quem trabalhasse nas fábricas, no comércio, nos escritórios.
As plantas morriam nos jardins por falta de água.
Os comboios deixaram de parar na estação.
A cidade morria.
Só os cães prosperavam.

Agora que era membro do conselho (e rapidamente chegou a presidente por causa do falecimento do titular) as funções deste esvaziavam-se.

Numa manhã em que ao vir de casa não se cruzou com ninguém resolveu verificar se era o último cidadão que ainda não tinha saltado.
Cruzou as ruas até o carro parar por falta de gasolina e não viu ninguém (nomeadamente nos postos de abastecimento de combustível).
Os supermercados estavam abertos, vazios, repletos de produtos a passar a validade, mas ninguém os pilhava.
Não havia quem pilhasse.
Também não havia polícias.
Nem luzes.
Só o esqueleto da cidade sobrevivia, as avenidas ortogonais, o reflexo dos vidros das janelas, os carros arrumados junto dos passeios.
O cimento, o metal, sobreviviam à carne que entretanto apodrecera.

Acabou por se convencer que a cidade estava mesmo vazia de gente.
«É a minha vez de saltar», pensou.
Assaltou um carro e dirigiu-se à Torre da Solidão.
Matilhas de cães rosnavam-lhe ao começar a subir as escadas, mas com a quantidade de carne morta que rodeava a base da torre viraram a atenção para outro lado.
O cheiro nauseabundo empurrou-o pelas escadas acima.
Engordara, teve de parar várias vezes pelo caminho para respirar.
Finalmente chegou à plataforma.
Imaginara que ia estar sozinho, no entanto estavam lá já duas pessoas.
Um casal.
Ela era a mulher da janela, a que o fizera sofrer a esperança da morte pela primeira vez.
Ele era o marido, um tipo com ar de quem só serve para passar papéis do lado esquerdo da secretária para o direito. Por um momento estudaram-se, olharam-se nos olhos. Finalmente a mulher reconheceu-o. Olhou para o marido, olhou para si, suspirou de desalento e saltou.

Ficaram os dois sós, ele e o viúvo que tinha ar de só servir para passar papéis do lado esquerdo da secretária para o direito. Trocaram um breve olhar e desviaram os olhos um do outro.

Lentamente dirigiram-se para a escada e começaram a descer.

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