Friday, June 23, 2006
A Ponte da Glória XIII, O Festival da Juventude
Não haviam os poderes morais de ficar calados perante o massacre juvenil, a forma bárbara e selvagem como a juventude saltava de locais não autorizados. Não podiam.
Não podiam as autoridades ficar indiferentes ao desafio nem os jovens, provado agora o gosto da desobediência e da revolta ficar em jejum.
Construíra-se a Torre para que se saltasse nela. Pois que nela se saltasse e não fora, em sítios não autorizados, sem condições de higiene, sem a grandeza que a morte sublima.
E as cores.
Os jovens matavam-se agora por cores em bandos amarelos, encarnados, verdes, garridos, em estética de video clip espalhando grafitti nos chãos de ruas, desenhando com o seu sangue e as posições grotescas dos corpos obscenidades que os poderes morais não podiam tolerar.
Estaria toda a juventude corrupta e falha de princípios?
Não haveria na juventude ainda um desejo branco de ausência de garridice, um propósito de abstinência que a conduzisse à morte, sim, mas a uma morte imaculada, com princípio, meio e fim?
Exacto, principalmente com fim, mas um fim em branco, um fim que apagasse as jovens vidas como a tela de um cinema quando o filme acaba e os créditos e tudo se acaba e as luzes se acendem fazendo morrer a magia, fazendo que a morte se tornasse de facto um eterno descanso e não uma maneira de dizer.
Teria de se encontrar uma resposta em branco, descolorida, vazia, que permitisse à juventude enchê-la de propósitos de renúncia, de abstinência, contrariar a sensualidade da morte dos gangs, transformar em estátuas de mármore os corpos belos que saltam.
Um festival de branco.
A obra ao negro evocada em branco.
A pureza como fim, a ascese.
Concordaram as autoridades municipais. Contrataram empresas de publicidade como se se tratasse de uma campanha eleitoral.
O festival da Juventude.
Que se engalanassem as avenidas de flâmulas apagadas em branco, que se agitassem bandeiras brancas de pureza.
Grupos de jovens vestidos de branco acorreram do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste.
Desciam dos autocarros, subiam dos subterrâneos do Metro, passavam por debaixo dos arcos enfeitados com lírios brancos, os rapazes com as suas fardas brancas, excitados e ao mesmo tempo receosos, pois só se morre uma vez, viver equivale a muitas mortes.
Cada momento que passa morre, vai-se embora e não torna.
As raparigas vestidas de túnicas aguardavam a passagem dos rapazes, decotes entreabertos obrigando a adivinhar peitos como cúpulas apontadas em prece aos céus, em orações perdidas pelos que partem.
Multidões viam passar o cortejo divididas entre os pêsames prévios aos pais e as barracas das bifanas, atiravam pétalas brancas aos morituri que se juntavam na palidez das faces, na palidez das vestes ao branco do chão pintado pelas pétalas que caiam como flores de amendoeira.
Em paz e em filas se dirigiram à Torre.
As autoridades morais aguardavam-nos com palavras grandiloquentes e por fim saltaram.
Ordeiramente, mesmo que alguém se arrependesse e quisesse continuar morto em vida por mais algum tempo os que vinham atrás na fila não o deixariam, saltava na mesma.
Alguns ainda tinham tempo de acenar aos entes queridos, à mãe, ao pai, à rapariga a quem tinham furtado um beijo escondido num recanto da escola e estes retribuíam com outro aceno que já não era visto pelo saltador mas por outro saltador que se lhe seguia e que à distância pensava ser um aceno para si dos seus entes queridos, o que tanto fazia pois todos nós temos apesar de tudo entes que nos são queridos e que nos querem.
Não podiam as autoridades ficar indiferentes ao desafio nem os jovens, provado agora o gosto da desobediência e da revolta ficar em jejum.
Construíra-se a Torre para que se saltasse nela. Pois que nela se saltasse e não fora, em sítios não autorizados, sem condições de higiene, sem a grandeza que a morte sublima.
E as cores.
Os jovens matavam-se agora por cores em bandos amarelos, encarnados, verdes, garridos, em estética de video clip espalhando grafitti nos chãos de ruas, desenhando com o seu sangue e as posições grotescas dos corpos obscenidades que os poderes morais não podiam tolerar.
Estaria toda a juventude corrupta e falha de princípios?
Não haveria na juventude ainda um desejo branco de ausência de garridice, um propósito de abstinência que a conduzisse à morte, sim, mas a uma morte imaculada, com princípio, meio e fim?
Exacto, principalmente com fim, mas um fim em branco, um fim que apagasse as jovens vidas como a tela de um cinema quando o filme acaba e os créditos e tudo se acaba e as luzes se acendem fazendo morrer a magia, fazendo que a morte se tornasse de facto um eterno descanso e não uma maneira de dizer.
Teria de se encontrar uma resposta em branco, descolorida, vazia, que permitisse à juventude enchê-la de propósitos de renúncia, de abstinência, contrariar a sensualidade da morte dos gangs, transformar em estátuas de mármore os corpos belos que saltam.
Um festival de branco.
A obra ao negro evocada em branco.
A pureza como fim, a ascese.
Concordaram as autoridades municipais. Contrataram empresas de publicidade como se se tratasse de uma campanha eleitoral.
O festival da Juventude.
Que se engalanassem as avenidas de flâmulas apagadas em branco, que se agitassem bandeiras brancas de pureza.
Grupos de jovens vestidos de branco acorreram do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste.
Desciam dos autocarros, subiam dos subterrâneos do Metro, passavam por debaixo dos arcos enfeitados com lírios brancos, os rapazes com as suas fardas brancas, excitados e ao mesmo tempo receosos, pois só se morre uma vez, viver equivale a muitas mortes.
Cada momento que passa morre, vai-se embora e não torna.
As raparigas vestidas de túnicas aguardavam a passagem dos rapazes, decotes entreabertos obrigando a adivinhar peitos como cúpulas apontadas em prece aos céus, em orações perdidas pelos que partem.
Multidões viam passar o cortejo divididas entre os pêsames prévios aos pais e as barracas das bifanas, atiravam pétalas brancas aos morituri que se juntavam na palidez das faces, na palidez das vestes ao branco do chão pintado pelas pétalas que caiam como flores de amendoeira.
Em paz e em filas se dirigiram à Torre.
As autoridades morais aguardavam-nos com palavras grandiloquentes e por fim saltaram.
Ordeiramente, mesmo que alguém se arrependesse e quisesse continuar morto em vida por mais algum tempo os que vinham atrás na fila não o deixariam, saltava na mesma.
Alguns ainda tinham tempo de acenar aos entes queridos, à mãe, ao pai, à rapariga a quem tinham furtado um beijo escondido num recanto da escola e estes retribuíam com outro aceno que já não era visto pelo saltador mas por outro saltador que se lhe seguia e que à distância pensava ser um aceno para si dos seus entes queridos, o que tanto fazia pois todos nós temos apesar de tudo entes que nos são queridos e que nos querem.
