Monday, June 19, 2006
A Ponte da Glória XII, O Passaporte para a Glória
Quer dizer, passou pelos sítios do costume e viu que o puto do bolicao desta vez trazia uns metros atrás um tipo com ar de pai que o seguia com um ar distraído como quem não quer a coisa.
Ora pais não era a sua especialidade, a começar pelo seu próprio.
Antes que o puto o visse decidiu ir ter com o banco do jardim em que tinha esperança que o cego estivesse sentado com a sua bolsa, a bengala, os óculos escuros e as pedrinhas.
«Então não foste de cana? Decidiste mudar o teu destino?»
- «Não me apeteceu. E a coisa estava mais para o levar um enxerto que para o ir de cana. Como é que sabes que sou eu, reconheces-me a maneira de andar pelo som dos passos? Vi um filme em que era assim…»
- «Não, não é preciso esse esforço todo, tu não gostas de tomar banho, pois não?»
- «Enganei as tuas pedras.»
- «Enganaste as tuas, as minhas não, eu sabia que hoje de manhã estavas aqui, estava à tua espera.»
- «Achas que tenho assim tanto interesse pelas tuas pedras?»
- «Não, mas acho que tens um interesse muito grande pela minha bolsa.»
- «Olha que já nem me lembrava dela.»
- «Pois. E planos para hoje, para além de me tirares a bolsa, claro?»
Que não tinha, que nunca tinha. Tentou pôr um ar blasé tipo nunca faço planos com mais de duas horas de antecedência mas lembrou-se de que a capacidade de acreditar na sua treta por parte do cego era limitada e disse a verdade tal como a entendia, que não tinha planos, estava à espera que o vento lhe desse uma inspiração qualquer, não tinha intenção de fazer nada e se calhar ia fazer isso mesmo com os amigos. Nada.
Que se sentasse, disse-lhe o cego, estás melhor comigo e com as minhas pedras. Que era um especialista em nadas, um nadólogo, um dos poucos que restavam depois das perseguições. Sabia avaliar o nada pelo sabor, pelo cheiro e pelo cansaço que provocava. Sabia distinguir o nada nas suas três espécies e quatro componentes, sabia distinguir um nada ligeiro de um nada profundo, sabia navegar no nada acompanhado das suas pedrinhas. O vazio era seu conhecido, tratava por tu o oco e os seus descendentes sem conteúdo. Era seu brasão um copo de água sem água (que sabia perfeitamente distinguir de um copo de vinho sem vinho ou de uma caneca sem cerveja sem os ver, sem os tocar, sem ser pelo som, apenas pelo sabor do vazio, o sabor de um copo sem água era para si completamente diferente do sabor do mesmo copo sem vinho). Era um especialista em nada, no grande Nada.
Se calhar era o nada que os irmanava, a ausência era-lhes cara a ambos e ficaram a falar sentados no banco do jardim a manhã toda. E teriam ficado ainda a tarde se o rapaz não tivesse aproveitado o calor posto pelo cego na descrição da sensação do vazio e não se tivesse finalmente apoderado da bolsa.
Correu com ela e abriu-a: O Bilhete de identidade, uma sandes de fiambre e um par de peúgas. E ainda uma faixa amarela daquelas de pôr na cabeça.
O cego descansou, tinha-lhe levado algum tempo mas finalmente dera a conhecer ao rapaz a cor da esperança, o amarelo do clube, o passaporte para a Glória.
Ora pais não era a sua especialidade, a começar pelo seu próprio.
Antes que o puto o visse decidiu ir ter com o banco do jardim em que tinha esperança que o cego estivesse sentado com a sua bolsa, a bengala, os óculos escuros e as pedrinhas.
«Então não foste de cana? Decidiste mudar o teu destino?»
- «Não me apeteceu. E a coisa estava mais para o levar um enxerto que para o ir de cana. Como é que sabes que sou eu, reconheces-me a maneira de andar pelo som dos passos? Vi um filme em que era assim…»
- «Não, não é preciso esse esforço todo, tu não gostas de tomar banho, pois não?»
- «Enganei as tuas pedras.»
- «Enganaste as tuas, as minhas não, eu sabia que hoje de manhã estavas aqui, estava à tua espera.»
- «Achas que tenho assim tanto interesse pelas tuas pedras?»
- «Não, mas acho que tens um interesse muito grande pela minha bolsa.»
- «Olha que já nem me lembrava dela.»
- «Pois. E planos para hoje, para além de me tirares a bolsa, claro?»
Que não tinha, que nunca tinha. Tentou pôr um ar blasé tipo nunca faço planos com mais de duas horas de antecedência mas lembrou-se de que a capacidade de acreditar na sua treta por parte do cego era limitada e disse a verdade tal como a entendia, que não tinha planos, estava à espera que o vento lhe desse uma inspiração qualquer, não tinha intenção de fazer nada e se calhar ia fazer isso mesmo com os amigos. Nada.
Que se sentasse, disse-lhe o cego, estás melhor comigo e com as minhas pedras. Que era um especialista em nadas, um nadólogo, um dos poucos que restavam depois das perseguições. Sabia avaliar o nada pelo sabor, pelo cheiro e pelo cansaço que provocava. Sabia distinguir o nada nas suas três espécies e quatro componentes, sabia distinguir um nada ligeiro de um nada profundo, sabia navegar no nada acompanhado das suas pedrinhas. O vazio era seu conhecido, tratava por tu o oco e os seus descendentes sem conteúdo. Era seu brasão um copo de água sem água (que sabia perfeitamente distinguir de um copo de vinho sem vinho ou de uma caneca sem cerveja sem os ver, sem os tocar, sem ser pelo som, apenas pelo sabor do vazio, o sabor de um copo sem água era para si completamente diferente do sabor do mesmo copo sem vinho). Era um especialista em nada, no grande Nada.
Se calhar era o nada que os irmanava, a ausência era-lhes cara a ambos e ficaram a falar sentados no banco do jardim a manhã toda. E teriam ficado ainda a tarde se o rapaz não tivesse aproveitado o calor posto pelo cego na descrição da sensação do vazio e não se tivesse finalmente apoderado da bolsa.
Correu com ela e abriu-a: O Bilhete de identidade, uma sandes de fiambre e um par de peúgas. E ainda uma faixa amarela daquelas de pôr na cabeça.
O cego descansou, tinha-lhe levado algum tempo mas finalmente dera a conhecer ao rapaz a cor da esperança, o amarelo do clube, o passaporte para a Glória.
