Monday, June 12, 2006

 

A Ponte da Glória XI, As Pedrinhas da Sabedoria

Um tipo sentado num banco de jardim a brincar com umas pedrinhas. Ao lado dele uma bolsa e uma bengala. Na cara uns óculos escuros.

Devia ser cego.

A curiosidade de ver se tinha alguma coisa de valor na bolsa fê-lo aproximar-se. Passou uma vez pela frente, outra por detrás. Convenceu-se que o tipo dos óculos escuros era mesmo cego, passou por outra vez detrás do banco e atirou a mão à bolsa. Ficou com a mão presa como numa ratoeira. Puxou, o tipo não o largava, tentou bater-lhe, o outro esquivava-se. Tirou a faca da algibeira e levou um par de estalos que o fez largar a faca e vir as lágrimas aos olhos.

Começou a sentir-se incomodado e furioso, levar porrada de um cego mexia com a sua dignidade.

«Estás mais calmo?»
Respondeu com um rosnido. Se este tipo pensar que eu amansei talvez me largue.
«Senta-te»
Tá bem, de outro modo ele não me larga.
«Querias saber o que está dentro da bolsa? Eu digo-te: O Bilhete de identidade, uma sandes de fiambre e um par de peúgas. Qual destas coisas te interessa mais?»

Não podia ser. Não podia haver só aquilo na bolsa do cego.
Fez uma pose descontraída e riu-se.
«Queres sentar-te aqui? Isto é, se eu te largar a mão?»
«Para quê?»
«E porque não? Estás com pressa de ir roubar bolsas a ceguinhos?»
Tá bem, pensou, sento-me, dou-te duas de treta e levo o saco todo!

«Ok, podes largar.»

Sentou-se.
«Isso são pedras de quê?» Como se estivesse interessado.
- «São de um jogo filosófico: coloco uma pergunta a mim mesmo e se tiver resposta ponho uma pedra dentro deste copo à minha direita, se não tiver ponho uma pedra no copo do lado esquerdo, no fim do dia conto as pedras, vejo o que tem mais e fico a saber se foi um dia bom para o conhecimento da humanidade ou não.»
- «Perguntas de quê? Assim como quando andava na escola? Testes? Mas se tu fazes a pergunta já é meio caminho para saberes a resposta…»
- «Queres experimentar?»
- «Onde é que vou estar amanhã a esta hora?»
- «Sabes a resposta para essa pergunta?»
- «Sei, vou estar de cana. Se nem uma bolsa de um ceguinho consigo fazer… Não faz mal, logo a seguir soltam-me.»
- «É bom ir dentro?»
- «Eles não me conseguem fazer nada, prendem-me e soltam-me logo.»
- «E se um dia se esquecem de ti lá dentro?»
- «Mas tive resposta, não tive? Pedra no copo da direita.»
- «Mas essa era uma pergunta fácil, e se em vez de amanhã fosse no dia a seguir ou na próxima semana?»
- «Não costumo fazer planos com tanto tempo de avanço.»
- «Pois não, não costumas.»

Mas mesmo assim no dia seguinte voltou ao jardim.

Comments:
De onde surge a estória ? Em que recanto do cérebro surge esta realidade? Que sinopses despoletam esta criação ?
Não sabemos - nem temos que saber - mas podemos usufruí-la. E que sorte temos.
Parabéns.
 
Eu já desconfiava que o pior cego é mesmo o que não quer ver... felizmente, mais tarde ou mais cedo, aparece sempre um cego a guiar-nos... quanto mais não seja... nós próprios. Conseguiste surpreender-me... apesar de eu já ser muito dificilmente surpreendível (!?) e de já estar sempre mais ou menos alerta para a tua imaginação.
Um abraço
R
PS Aguardo a próxima cena... :-)
 
Post a Comment

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?