Thursday, June 01, 2006
A Ponte da Glória X, Por Ser Dia Mundial da Criança
Chegou a casa eram oito da manhã.
De caminho para o quarto parou no frigorífico a ver se havia alguma coisa para comer.
Vazio.
Aquele frigorífico era o espelho das pessoas que viviam na casa.
Ao ir para o quarto viu o pai a ressonar no sofá da sala.
Tinha havido festa. Foi ao quarto da mãe e ao da irmã. Não estavam, deviam ter fugido para casa da vizinha, a mãe para que ele não lhe batesse, a irmã para não ser violada.
Ainda bem que não estava em casa.
Tinha havido alturas em que era mais lento, ou o pai mais rápido, e não tinha conseguido fugir a tempo.
Resolvera o assunto com uma faca, numa noite em que o pai estava particularmente agressivo. Espetou-lha na perna e a partir daí a vítima tinha sido a irmã.
Antes ela que ele.
Saiu.
Era a hora dos putos do ciclo irem para a escola com as suas mochilas carregadas de sabedoria, bonecos do homem aranha e lanches.
Tinha fome.
Abordou um miúdo. Mandou-o entregar-lhe a mochila. Lá dentro tinha um bolicao e um pacote com leite com chocolate.
Confiscou-os e atirou a mochila para o chão.
Começou a comer e viu que o puto não se ia embora. Ficava a olhar para ele. O que é que o puto queria mais?
Bebeu o leite e a sua percepção melhorou. Era o bonequinho que vinha com o bolicao, o puto queria o autocolante.
Por isso aquele olhar ansioso enquanto olhava para si.
Demorou-se um bocadinho mais a beber e a comer o bolicao, com muito cuidado para não amarrotar o papel.
Quando acabou viu os olhos do puto iluminarem-se como se nem tudo estivesse perdido, fez menção de atirar o saco de plástico do bolicao para o chão mas como se se tivesse arrependido voltou com o gesto atrás e rasgou cuidadosamente o autocolante antes de o deitar fora.
O puto afastou-se com um ar resignado.
De caminho para o quarto parou no frigorífico a ver se havia alguma coisa para comer.
Vazio.
Aquele frigorífico era o espelho das pessoas que viviam na casa.
Ao ir para o quarto viu o pai a ressonar no sofá da sala.
Tinha havido festa. Foi ao quarto da mãe e ao da irmã. Não estavam, deviam ter fugido para casa da vizinha, a mãe para que ele não lhe batesse, a irmã para não ser violada.
Ainda bem que não estava em casa.
Tinha havido alturas em que era mais lento, ou o pai mais rápido, e não tinha conseguido fugir a tempo.
Resolvera o assunto com uma faca, numa noite em que o pai estava particularmente agressivo. Espetou-lha na perna e a partir daí a vítima tinha sido a irmã.
Antes ela que ele.
Saiu.
Era a hora dos putos do ciclo irem para a escola com as suas mochilas carregadas de sabedoria, bonecos do homem aranha e lanches.
Tinha fome.
Abordou um miúdo. Mandou-o entregar-lhe a mochila. Lá dentro tinha um bolicao e um pacote com leite com chocolate.
Confiscou-os e atirou a mochila para o chão.
Começou a comer e viu que o puto não se ia embora. Ficava a olhar para ele. O que é que o puto queria mais?
Bebeu o leite e a sua percepção melhorou. Era o bonequinho que vinha com o bolicao, o puto queria o autocolante.
Por isso aquele olhar ansioso enquanto olhava para si.
Demorou-se um bocadinho mais a beber e a comer o bolicao, com muito cuidado para não amarrotar o papel.
Quando acabou viu os olhos do puto iluminarem-se como se nem tudo estivesse perdido, fez menção de atirar o saco de plástico do bolicao para o chão mas como se se tivesse arrependido voltou com o gesto atrás e rasgou cuidadosamente o autocolante antes de o deitar fora.
O puto afastou-se com um ar resignado.
Comments:
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Ok, rendo-me. Nestes dias é importante que a dor não se enterre. Que não se encerre o assunto da dor. Faz doer, faz doer, não rima, mas é verdade.
Bji
R
Bji
R
Esta é uma narrativa de total desesperança, um ícone da falta de referências e perspectivas (de valores, nem falar!).
Precisamos de as ler, também...
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Precisamos de as ler, também...
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