Wednesday, May 17, 2006

 

A Torre da Glória, o respirar suave

O respirar suave alterou-se.
Deu voltas na cama e pensou que estava a sonhar que eram horas de acordar.
Eram.

Levantou-se e reparou que o lugar ao seu lado na cama estava vazio.
E frio.

«É porque já se levantou.» Pensou o respirar suave. «Foi mais cedo para o trabalho. «Boa viagem!»

Todos os dias aquele homem se tornava mais chato, ultimamente dava-lhe para acordar cedo, incomodando-a, felizmente hoje não fizera barulho.

Dia de folga do respirar suave.
Parte ao encontro de outro respirar suave com quem combinara de véspera.
Dar um passeio.
Às compras, fazer qualquer coisa de divertido.

Encontraram-se no café do costume.

«Apetece-te ir à Torre da Glória ver os saltadores?»

Desceram a Avenida, conscientes dos olhares dos homens que as admiravam. Compraram gelados e riram-se deles. Foram de eléctrico, sempre a rir.

A sua alegria contrastava com o ar nervoso dos jogadores viciados que seguiam também no eléctrico.

Um pulo até à torre, quando lá chegaram era meio da manhã, uma hora pouco frequentada por saltadores mas apesar de tudo talvez tivessem alguma sorte. Dizia-se até que os melhores artistas procuravam um público de qualidade, não o público de Domingo à tarde mas de um dia de semana de manhã, reformados, pessoas com folgas no trabalho a meio da semana, donas de casa.

Subiram e o vento fresco do alto da torre avivou-lhes as cores dos rostos.
Eram um espectáculo bonito de ver e algumas pessoas olharam-nas por momentos, embora logo voltassem a atenção para a borda da torre.
É que por vezes havia saltadores que se faziam acompanhar da família como se fossem dar a volta dos tristes, compravam algodão doce para os miúdos e um gelado para a patroa, sorriam como podiam e quando ninguém esperava corriam para a borda e saltavam de surpresa para o ar. As pessoas gostavam de ver a cara de espanto dos parentes nessas ocasiões.

O respirar suave pensou em como seria bom que o gajo resolvesse saltar e a largasse de vez, a deixasse viver a vida a que tinha direito.

Mas essa sorte não tinha ela, o tipo era demasiado cobarde.

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