Wednesday, May 10, 2006

 

A Ponte da Glória VI, a insónia

Nessa manhã acordou às quatro.
Às quatro ainda a claridade não se deixava adivinhar no escuro do quarto apenas iluminado pelos cardinais encarnados do despertador.
A seu lado um respirar leve.

Tentou virar-se de lado, para o outro lado e outra vez para o outro lado. Era escusado, não ia conseguir dormir mais.
Há meses que era assim, dormir sobressaltado duas, três horas, acordar sem nada para fazer.

Cedo demais para tomar o pequeno-almoço.
Cedo demais para ler, as letrinhas começavam a fugir dos carreirinhos como formigas quando se pisam. Nem sequer a leitura lhe dava o gosto de uma companhia.

Mais um dia assim.
E há tanto tempo que os dias eram assim.
Um frio danado atravessava-lhe o coração e arrepiava-o.

Cansado.
Mais um dia de cansaço.
Estava farto. Só de pensar em cumprir a rotina magoava-o, tomar o pequeno-almoço, lavar-se, ir trabalhar, mover papéis do lado esquerdo da secretária para o direito.

Acho que hoje não consigo.
Acho que amanhã também não.
Acho que nunca mais consigo.

De qualquer modo vestiu-se. Cheio de silêncios para não acordar o respirar suave que se mantinha na cama, indiferente.

É hoje.
Vou acabar com isto, estou farto.

Este pensamento por estranho que pareça transmitiu-lhe alguma esperança.
Saltar.
No ar.
De forma olímpica, esquecer, pôr termo a isto.
Sim.
À medida que a ideia tomava forma na sua cabeça a dor afogava-se submersa pela resolução.
Saltar.
No ar.
Esquecer.

Lentamente saiu de casa.
Deixou o carro na garagem e foi a pé.
Pelo caminho às vezes reflectia: e se apesar de tudo, mas isso apenas lhe fazia doer mais.

Não!
Tomara uma resolução.
O sentimento de ter tomado a resolução, de agir como senhor de si próprio pela primeira vez em tanto tempo animava-o. Dava-lhe o alento necessário a cortar o ar pelo passeio na manhã ainda fria.

Ainda longe começou a ver a Torre.
Era feita para isso, para que ao longe difundisse esperança aos que desesperavam, para que ao longe desse o alento aos que não viam outra maneira.
Aproximava-se e os contornos esclareciam-se agora que o Sol começava a desenhá-la por detrás.

Chegou à torre já dia claro, ainda cedo.
Era uma hora de sossego.
Tinha um elevador à sua espera.
Viajou sozinho numa carruagem para vinte pessoas.

Lá em cima cinco ou seis noctívagos olharam-no com curiosidade. E mantiveram os olhos fixos em si enquanto disfarçava o motivo que o levara lá.
Mas o seu ar era inconfundível.
Eram quase profissionais naquilo. Olharam para si e reconheceram aquele misto de desespero e coragem que caracteriza os saltadores.

Olharam uns para os outros e trocaram olhares de apostas que se coibiram de narrar alto para não o perturbar, para o poupar ao vexame de ver a sua morte disputada.

Dirigiu-se à borda da torre.
Para trás de si deixava uma vida de frustrações e desespero, travada em cinzentos pastosos.

Passou uma perna, a direita, depois a esquerda, segurou-se com os bicos dos pés no chão por debaixo da grade de protecção e com as mãos agarradas ao corrimão.

Gostava de ser como aqueles heróis que se atiravam em mergulho para o ar caindo com graça até a cabeça se lhes esmagar no chão.
Mas não era. Como em tudo na vida era deselegante e pesado.
Até na morte.

Largar as mãos, deixar-se desequilibrar para trás, deixar-se cair.
Os olhares dos assistentes fixavam-se nele à espera, gulosos.
Tinham-se aproximado discretamente e com um ar compungido da beira. Queriam ver o voo.

Olhou para baixo por entre os pés.

O chão parecia tão longe.

É só largar as mãos, pensou, só largar as mãos, demorava no pensamento.
Foi um olhar de dúvida de um dos espectadores que o fez duvidar de si.
Não tenho coragem!
Começou a passar a perna direita por cima da vedação outra vez, agora para trás.
Parou a meio.
Não sou homem não sou nada, tomei uma decisão e vou mantê-la, é só largar as mãos.
Respirou fundo, preparou-se para largar as mãos e percebeu que não ia conseguir.

Passou novamente a perna, a outra, correu rápido até ao elevador com vergonha do desprezo no olhar dos mirones.

Ainda viu as notas começarem a mudar de dono.

O elevador estava vazio, oco.

Completamente desesperado afastou-se foi trabalhar, mudar papéis do lado esquerdo da secretária para o lado direito.
Era para o que servia.

Comments:
Entre a ponte e a torre, uma história em que a metáfora denuncia a realidade. A imaginação aqui ao serviço da denúncia da loucura quase institucionalizada. Quase dói dar tanto prazer a leitura de um texto conrtuído com tijolos de dor. Esta torre fez-me lembra a carta do tarot A Torre, mas aqui vai-se mais longe do que o símbolo. Vai-se mais longe sem se sair do mesmo sítio. Aqui, salta-se na imaginação e chega-se... à realidade!
O símbolo liberta-nos a metáfora desperta-nos.
Um abraço!
R
 
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