Thursday, April 27, 2006

 

A Ponte da Glória

Claro que assim que a nova ponte ficou pronta os problemas de trânsito passaram de um lado para outro sem ter causado grande alívio.

Eu explico.

As autoridades tinham construído uma espécie de esplanada junto do primeiro pilar.
Na esplanada havia o que costuma haver nas esplanadas: Cafés, geladarias, famílias em traje de passeio, desportistas em traje de desporto, carrinhos de hot dogs, namorados de olhar esperançoso, velhotes a jogar dominó e a admirar os rabos das raparigas com um olhar desesperançoso. Pessoas no seu melhor.
Aos Domingos então era um festival, pessoas por todo o lado.
Os habitués chateados pela presença dos outros, o cheiro a algodão doce as gajas de casaco de peles a suar em bica do efeito do vinho do almoço sob o peso do Sol.

O Sol por sua vez não se chateava. Os Homens nascem e morrem, os sóis também mas muito mais devagar.

O primeiro foi notícia curta de jornal. Que um homem de 26 anos se tinha atirado da plataforma do primeiro pilar, dado um salto elegante e aterrado de cabeça cem metros abaixo, espalhando sangue e pedaços de si na base do pilar.

No Domingo seguinte mais dois. A partir daí os problemas de trânsito no acesso à ponte começaram a ser terríveis.

As pessoas afluíam aos magotes, o homem do carrinho dos hot dogs foi obrigado a comprar um distribuidor de senhas e a contratar um ajudante porque a confusão na fila era tal que às vezes as pessoas se pegavam, retirando solenidade ao local.

Começou a atribuir-se entre os mirones pontuações à elegância do salto dos suicidas.
Claro que nem todos conseguiam fazer um duplo mortal encorpado, às vezes timidavam uma perna primeiro por cima da vedação, hesitavam, acabavam por se atirar para uma morte inglória de baixa pontuação. E havia mesmo os que desistiam sob os apupos da multidão.

Normalmente eram homens. O espectáculo da morte das mulheres não era muito apreciado, não se sabe porquê.

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