Thursday, April 27, 2006

 

A Ponte da Glória IV, Uma Questão de Pudor

A confusão era tão grande que foi decidido construir uma torre especialmente para o efeito no parque da cidade.
A Torre suicidária.

Rectangular, atirada para o céu para que os saltadores (eram conhecidos agora assim) pudessem praticar a sua arte como se vindos do céu para a terra.
Para que a imagem bela e pura do saltador, braços abertos, peito ao vento, iniciando o mergulho suave como ave a iniciar o voo, recortada contra o azul do céu emocionasse os espectadores.
Para que esse momento fugaz e irrepetível pudesse ficar guardado na mente dos que a ele assistissem.
Na mente, porque no solo não. Este fora substituído por uma enorme bacia em alumínio com uma rede fina que permitia colher os corpos sem desnecessárias exposições a quedas intempestivas.
Um sistema de rega permitia a auto lavagem dos restos para uma canalização central.
Um murete delimitava a bacia, com nichos para guardar ramos de flores que as famílias enlutadas depositariam.
E não só as famílias, os representantes do clube da freguesia enlutada pela morte dos mais bravos saltadores, aqueles que empolgavam as multidões, os da nota 5 com comentários favoráveis da imprensa poderia pôr flores com notas pungentes.
“Adeus amigo, saltaste bem.” Ou coisa que o valha.

Em volta, a toda a volta da torre elevar-se-iam bancadas. Modernas, confortáveis.

Duas questões políticas se levantaram desde logo em relação a este projecto.

Como chamar-lhe?
Que símbolo colocar-lhe no topo?

Torre do suicídio não podia ser por uma questão de pudor.

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