Thursday, March 09, 2006

 

A Mentira da Palavra Escrita ou uma Homenagem a Alcibíades

A Mentira da Palavra Escrita

Um som.
Um som é uma vibração.
Normalmente no ar mas na água também dá, ouve-se ao longe os navios a passar. Ou na madeira, encosta-se o ouvido ao tampo e do outro lado a outra criança bate em código e assim voltamos à infância.
Ou podemos brincar ao Prisioneiro no Castelo de Zenda com paredes finas.

Desenhar um som?
Parece fácil.
O som de um copo a tilintar pode ser transcrito por um desenho tilintante, algo com uma forma irisada.

Desenhar uma ideia?
Não é tão fácil, mas uma ideia de vazio pode ser dada por um ponto e a ideia de cheio por um círculo. Ou ao contrário, um ponto está cheio de si e o círculo parece vazio no meio.

Alto pode ser desenhado por um pauzinho na vertical e baixo por um pauzinho na horizontal.

Desenhar o som “f”.
Desenha-se o sorriso que as pessoas fazem ao pronunciá-lo.
O “p” tem a mesma lógica, é um “f” sisudo, sem sorriso.
Põe-se a boca em “f” e fecha-se os lábios. Sai “p”.

E pode desenhar-se coisas concretas: Um peixe se se quiser dizer “p” ou um feixe se se quiser dizer “f”.

Assim uma expressão de desdém como Pfff! Podia ser criada no papel ou na parede ou em desenhos na areia do chão através de um peixe seguido de vários feixes.
O problema seria o ponto de exclamação, mas esse convencionava-se: «Quando eu desenhar “!” quer dizer ponto de exclamação», terá dito um nosso antepassado numa conferência internacional para fixação de ortografia, aí por volta do início da idade do ferro, ou poderia ter dito se na altura se usasse pontuação e as conferências internacionais fossem sobre ortografia.

E a razão por que não se usava pontuação é que a ideia de desenhar palavras tem a haver com a ideia de desenhar sons.

Captar o vento quando vibra e escrevê-lo, capturá-lo em monumentos a si próprios, formas de o recordar.

Um tipo chamado Alcibíades.
Um dia morre.
Mas não queremos que morra assim de repente dessa forma com que a morte costuma levar os mortais, agora estás vivo agora já não estás, queremos que vá sobrevivendo.
Podemos fazer um boneco dele.
Mas de quem é esse boneco? Perguntariam os vindouros?
O melhor é escrever no boneco, ou numa pedra, ou numa certidão de nascimento “Alcibíades”.

Mas para isso toda a gente teria de perceber que A, seguido de L por sua vez acompanhado de um C colocado antes de um I se acaso este for seguido de um B antecedendo este outro I e seguindo-se um A a que se junta um D interessado num E e terminando-se tudo com um S soa a Alcibíades.

Isso é uma questão de alfabetização (alcibiadização?).

Mas o problema real na transcrição das vibrações do ar não é o conteúdo intrínseco da palavra. Nem sequer a entoação que lhe confere a emoção.

É algo que a tornará para sempre falsa e que consiste no seguinte: As palavras não são abstractas, o som que produzem não é abstracto.
É um som concreto produzido por um meio concreto.
Dois copos a tilintar em tchim de champagne.
São parecidos com quaisquer outros mas não são iguais. O som não é o mesmo.
Cada vez que eu refiro dois copos a tilintar em tchim de champagne refiro ocasiões diferentes: O aniversário do casamento do leitor A, a coroação do congeminar de graves planos criminosos a outro leitor (embora as minhas páginas sejam tão pudicas quanto possível este é um país livre, qualquer um me pode ler) ou um terrível acidente de viação causado por um excesso de confiança nas capacidades de resistência aos efeitos do álcool que começou nesse mesmo tchim a outro.
E o som não era o mesmo. Não só nos efeitos, o amor, o crime, o desastre (ou tudo junto mas em proporções dissemelhantes) mas na causa.
Os copos eram mais largos, taças ou flautas, eram de diferentes espessuras, desigualmente cheios, diferentes.

Uma voz.
Não precisamos de pensar em coisas complicadas, do tipo comparações entre a Maria Callas e a Bianca Castafiori, basta-nos pensar na minha voz e na sua.
São diferentes.
Pelo menos pensamos que sim.
A voz de cada um de nós é algo que não podemos ouvir de fora. Não sabemos como soa aos outros dado que a ouvimos de dentro e aos outros ouvimo-los de fora.
Com uma boa aparelhagem quase que chegamos lá, mas é como a imagem, falta-nos qualquer coisa.
Olhamos para o espelho e vemos o olho esquerdo no lugar do direito e vice-versa.
E é mais importante do que parece.
Um lado da cara faz transparecer o que somos, o outro o que parecemos, quando nos vemos ao espelho parecemos o que somos, o que nos faz enganar sobre a nossa identidade.

E a nossa voz é algo que não conhecemos directamente.
Parece-nos quente, colocada?
Meiga, autoritária?
As duas coisas ao mesmo tempo?

A que lhe parecerá ao rouxinol o seu canto? Gostará? Faz aquilo como nós fazemos gargarejos?

E como devemos ler Alcibíades? Com a nossa voz, aquela que não conhecemos? Com a voz de Alcibíades, com a do escultor da estátua?
Com a voz do autor da inscrição da palavra Alcibíades por debaixo da estátua?
Parece-me que só esta é válida.
Só esta se refere ao autor das vibrações do ar correspondentes a Alcibíades que foram lá desenhadas.

Mas se ele for mudo?
Um desenhador mudo?
E se já tiver morrido?
E de qualquer modo? Pois não parece muito prático de cada vez que se lê um texto ir abordar o seu autor para que nos leia o texto:
Por um lado então escrevê-lo não serviria de nada se o texto tivesse de ser repetido.
Depois de cada vez que o texto fosse repetido não se trataria do mesmo texto mas de um outro texto com as mesmas palavras na mesma ordem.
E para além disso depois da invenção da imprensa a coisa torna-se impossível: Vou pedir ao autor do editorial do Diário de Notícias que mo leia para poder ouvir a sua voz? Eu e os outros 40.000 leitores? Todos ao mesmo tempo? Em comício?
Convoca-se todos os leitores da edição 50017 do DN para a leitura do editorial de hoje nàs16h00 no Estádio do SLB?

Não me parece prático.

E isto em relação ao editorial do DN.

E se fosse “Os Lusíadas”?

Convocava-se os alunos das escolas para séances espíritas com mestres à altura em vez de professores de português?

Parece que a palavra escrita estará condenada a ser uma abstracção.
E como todas as abstracções uma mentira.
Porque representa algo que não existe, uma linguagem inteligível por toda a gente ao mesmo tempo da mesma maneira com o mesmo significado.

Pois que voz ouvimos nós ao ler “Os Lusíadas”? A nossa, a do editor do DN, a do Camões?
A da vizinha do lado, noutro registo?
A da Cecília Bartoli?

Seja a que for dificilmente será a do autor da inscrição Alcibíades numa estátua do falecido Alcibíades.

Comments:
grande texto. Estás a habituar-nos mal.
 
Ai!
 
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Pensei ler este magnífico post ao meu piriquito, no dia em que percebi que o entusiasmo com que cantava cada vez que me ouvia tocar Bach ou Satie não era inferior àquele com que acompanhava o som da máquina de lavar... depois desisti da ideia. O som mais belo, mais belo que o das minhas desajeitadas teclas ou da rotativa máquina, é mesmo o do canto do meu piriquito, digo, a linguagem dos pássaros.
Se me dás licença citar-me-ei noutro sítio, porque este comentário que o teu texto me sugeriu por sua vez deu-me o mote para uma crónica. Obrigada te sou.
Um abraço
R
PS O livro do Telmo que há tanto tempo aqui tenho para te enviar fala destas coisas de que falas...
 
O René Magritte disse isto tudo só com um cachimbo e uma frase
 
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