Monday, February 20, 2006
O Tempo
1.Formas de criação.
O Tempo cria-se em geral por intervenção divina.
Um pai que devora os seus próprios filhos, momento a momento, talvez seja uma imagem demasiado dura da criação do tempo.
No entanto imagina que no princípio não havia tempo, tudo era Uno.
Haver tudo e não haver nada não eram coisas distintas.
O Uno retraiu-se para um ponto sozinho no mundo e auto destruiu-se numa explosão de fogo de artifício inaudível porque não havia espaço para que o som se propagasse.
Nessa altura passou a haver tempo.
2. Formas de passagem.
Não é tanto o tempo como a gravidade o que nos pesa.
Passa sempre. Tudo passa.
Repara numa corrente eléctrica.
Passa e depois de passar como é que se sabe que já passou?
Só se dá por ela se se estiver na passagem.
Uma afeição.
Pedro e Inês.
Sabemos, supomos saber, que se amavam.
O que resta desse amor? Dois túmulos escavacados na memória colectiva.
Mas para além da memória (concedendo que não se trate de um implante) o que sobra do seu afecto?
Vês de que cor é? Ouves o seu sabor?
O som das correntes de afecto a passar de peito a peito, qual é?
Um carro eléctrico. Uma carreira. O 28 para a Graça.
Passa. A seguir vem outro. De tantos em tantos eléctricos o carro é o mesmo.
Mas os passageiros são os mesmos?
E o condutor?
Esse deixamo-lo ficar mas transferimo-lo amanhã para outra carreira, uma que vá para a Ajuda, por exemplo.
É o tempo.
3. Formas de o iludir.
Compras um relógio de corda.
Não lhe dás corda, deixa-lo escolher o seu próprio tempo.
Não te preocupes, os relógios são sábios e o teu relógio parado estará sempre a horas.
Depois compras outro relógio.
Este queres que ande.
Quando for meia noite acerta-lo na uma da manhã.
Esse constitui o relógio do futuro.
Coloca-lo numa prateleira, atrás de uma vitrina para não apanhar pó, na sala de tua casa.
A esses dois juntas outro.
Esse há de andar com uma hora de atraso.
Quando for meia-noite acerta-lo nas onze.
É o relógio do passado.
Como não há presente, o futuro que acabo de escrever ali já é passado aqui, 31 letras e 10 espaços depois, para saberes as horas fazes a média entre o passado e o futuro, isto se fores uma pessoa conservadora.
Se fores uma pessoa progressista fazes a média entre o tempo do futuro e o do passado.
Como eu sou uma pessoa conservadora, um coleccionador de momentos, um saboreador de nanossegundos, começo pelas 09h05 no relógio do passado e peço uma segunda opinião ao relógio do futuro, que me diz que são 11h05.
É razoável concluir que são 10h06, dado o tempo necessário à realização desta operação.
Com o tempo hei de acabar por conseguir fazer a operação ainda às 10h05.
Esta é a forma cronológica, em que dividiste o tempo (por enquanto apenas em horas) há a seguir a forma pessoal, aquela em que assumes diversas personalidades, o que te permite tomar banho enquanto bebes um café e calçar os sapatos antes de calçar as peúgas (ou o equivalente feminino disto) de forma a não molhar os pés no chão da casa de banho, correr um joggingzinho matinal enquanto lês o periódico.
4. Formas perigosas de lidar com o tempo.
Esse é um capítulo reservado visto que o tempo se divide em três partes.
Mas, dirás tu, em três partes se divide a contagem do tempo não o tempo em si.
Certo, mas o tempo em si é exclusivamente uma contagem.
É uma questão de contas.
Como as esferas celestes.
Como as cordas da música.
O Tempo cria-se em geral por intervenção divina.
Um pai que devora os seus próprios filhos, momento a momento, talvez seja uma imagem demasiado dura da criação do tempo.
No entanto imagina que no princípio não havia tempo, tudo era Uno.
Haver tudo e não haver nada não eram coisas distintas.
O Uno retraiu-se para um ponto sozinho no mundo e auto destruiu-se numa explosão de fogo de artifício inaudível porque não havia espaço para que o som se propagasse.
Nessa altura passou a haver tempo.
2. Formas de passagem.
Não é tanto o tempo como a gravidade o que nos pesa.
Passa sempre. Tudo passa.
Repara numa corrente eléctrica.
Passa e depois de passar como é que se sabe que já passou?
Só se dá por ela se se estiver na passagem.
Uma afeição.
Pedro e Inês.
Sabemos, supomos saber, que se amavam.
O que resta desse amor? Dois túmulos escavacados na memória colectiva.
Mas para além da memória (concedendo que não se trate de um implante) o que sobra do seu afecto?
Vês de que cor é? Ouves o seu sabor?
O som das correntes de afecto a passar de peito a peito, qual é?
Um carro eléctrico. Uma carreira. O 28 para a Graça.
Passa. A seguir vem outro. De tantos em tantos eléctricos o carro é o mesmo.
Mas os passageiros são os mesmos?
E o condutor?
Esse deixamo-lo ficar mas transferimo-lo amanhã para outra carreira, uma que vá para a Ajuda, por exemplo.
É o tempo.
3. Formas de o iludir.
Compras um relógio de corda.
Não lhe dás corda, deixa-lo escolher o seu próprio tempo.
Não te preocupes, os relógios são sábios e o teu relógio parado estará sempre a horas.
Depois compras outro relógio.
Este queres que ande.
Quando for meia noite acerta-lo na uma da manhã.
Esse constitui o relógio do futuro.
Coloca-lo numa prateleira, atrás de uma vitrina para não apanhar pó, na sala de tua casa.
A esses dois juntas outro.
Esse há de andar com uma hora de atraso.
Quando for meia-noite acerta-lo nas onze.
É o relógio do passado.
Como não há presente, o futuro que acabo de escrever ali já é passado aqui, 31 letras e 10 espaços depois, para saberes as horas fazes a média entre o passado e o futuro, isto se fores uma pessoa conservadora.
Se fores uma pessoa progressista fazes a média entre o tempo do futuro e o do passado.
Como eu sou uma pessoa conservadora, um coleccionador de momentos, um saboreador de nanossegundos, começo pelas 09h05 no relógio do passado e peço uma segunda opinião ao relógio do futuro, que me diz que são 11h05.
É razoável concluir que são 10h06, dado o tempo necessário à realização desta operação.
Com o tempo hei de acabar por conseguir fazer a operação ainda às 10h05.
Esta é a forma cronológica, em que dividiste o tempo (por enquanto apenas em horas) há a seguir a forma pessoal, aquela em que assumes diversas personalidades, o que te permite tomar banho enquanto bebes um café e calçar os sapatos antes de calçar as peúgas (ou o equivalente feminino disto) de forma a não molhar os pés no chão da casa de banho, correr um joggingzinho matinal enquanto lês o periódico.
4. Formas perigosas de lidar com o tempo.
Esse é um capítulo reservado visto que o tempo se divide em três partes.
Mas, dirás tu, em três partes se divide a contagem do tempo não o tempo em si.
Certo, mas o tempo em si é exclusivamente uma contagem.
É uma questão de contas.
Como as esferas celestes.
Como as cordas da música.
