Monday, January 30, 2006

 

As Aventuras do Príncipe Achmed (versão não autorizada) Parte XII

Achmed despediu-se cortesmente de Her Wah e voltou para casa.

Tomou um banho de imersão e enquanto secava a pele e parava de suar manteve-se de toalha à cinta (uma homenagem que às vezes prestava à vizinha do apartamento em frente que tinha vista panorâmica para a sua cozinha) gozando o tempo quente.
Sentiu fome e começou a preparar o jantar.
Separou em cima da mesa da cozinha tomates e alface, pepinos e aipo, alho francês e rabanetes.
Migou um pouco de couve roxa, couve lombarda e cenoura e pensou que com um pouco de azeite, sal e orégãos dava uma boa salada, ou uma bela composição pictórica.

Cortou uns pimentos encarnados e verdes em pequenos cubos, misturou-os de uma forma patriótica e resolveu levá-los ao lume com carne picada e noz muscada.

Estava nesses trâmites quando começou a sentir o perfume de Her Wah a passar por debaixo da porta de entrada de casa, como um doce fantasma de Verão.
Sorriu e foi abrir.

Antecipadamente, enquanto se dirigia à porta, saboreou a visita de Her Wah:

1. Aberta a porta no patamar Her Wah olha-o com meio sorriso e ele atrapalhado para não deixar cair a toalha. Manda-a entrar e pede-lhe que se sente. Tencionava sair e ir-se vestir enquanto ela dançava até ao sofá mas ficou demasiado preso pela visão dos passos dela, das sandálias pretas enroscadas à volta das pernas, que ficou mais um bocadinho para lhe estender um cinzeiro com a mão direita enquanto segurava melhor a toalha com a esquerda.

Desta vez teve direito a um sorriso inteiro a despachá-lo para se ir vestir enquanto a cinza era delicadamente equilibrada na ponta do cigarro num exercício de malabarismo antes de ir parar ao cinzeiro e aí aguardar a remoção para o cemitério das cinzas.

Vestiu-se depressa, ainda a tempo de a ver acender um novo cigarro e começar a projectar o fumo de encontro ao raio de Sol que entra pela janela, fazendo o raio de Sol envolver-se em turbilhões de uma beleza barroca e dando à visão de Her Wah a dimensão de uma deusa. Talvez a deusa do fumo ou a das pernas traçadas protuberantes a partir do sofá.

Caí numa armadilha, pensou enquanto admirava a cor do bâton deixada pelos seus lábios na ponta do cigarro esmagado meticulosamente no cinzeiro.

Um gato de bom gosto aproxima-se de Her Wah e ela faz-lhe uma festa.


2. Aberta a porta no patamar Her Wah olha-o com meio sorriso e ele atrapalhado para não deixar cair a toalha. Tem um cigarro nos lábios, o que a faz piscar um olho como num gesto traquina. Tira-o com a mão livre, a que não tem um pássaro na mão.
«Tens um pássaro na mão.»
«É um cuco, encontrei-o no chão. É novo, está todo molhado, coitado do bicho, não me queres ajudar a tomar conta dele? Dou-te isto se me ajudares.»
E tira do saco de pano a tiracolo uma romã.
«Entra, olha a minha figura, estava a tomar banho, senta-te. Tens aqui um cinzeiro. Já volto.»

Volta e senta-se junto dela, a admirar o cuco e o cabelo dela, não certamente por esta ordem.

Estranha rapariga, Her Wah, aparece às vezes sem se fazer anunciar, despeja umas toneladas de charme na sala de Achmed, deixa-lhe o ar embaciado e os cinzeiros cheios de beatas e depois desaparece no ar como o fumo. Às vezes ainda deixa uma romã, outras vezes só deixa saudades.

Achmed colecciona as pontas de cigarro dela, mas esconde-os para fingir que não tem esses hábitos malsãos. Colecciona as pontas dos cigarros dela, os efeitos visuais, colecciona os olhares que lhe deita, o cheiro do fumo do cigarro, o cheiro do cabelo dela, a cor dos olhos e da pele.

«Vamos tratar do cuco?»

3. Aberta a porta no patamar um gajo com ar de vendedor de enciclopédias faz um passe de mágica em direcção a Achmed.
Este sente-se paralisado, só os olhos lhe obedecem.
Da sombra emergem três criaturas repelentes que pegam em si e o levam para a sala. Divertem-se por um instante a pô-lo em poses obscenas enquanto o vendedor de enciclopédias entra e se dirige ao sofá em que ainda há instantes na imaginação de Achmed Her Wah se estendera em paisagens de beleza.
O vendedor de enciclopédias senta-se, tira a carteira do casaco e de dentro dela sai uma enciclopédia luso brasileira numa versão de luxo com enfeites em ouro de 14 quilates que se dirige às estantes da sala de Achmed e as cobre de uma maneira sinistra, emparedando o Espinoza, o Clifford Simak e ainda as obras completas do Miles Davis.
Numa cópia barata na parede de um quadro de Dali Gala ri-se da figura de Achmed.
As criaturas repelentes fecham os estores da sala, Achmed está isolado do mundo.
Tiram-lhe a toalha e põem-se a rir dele.
O vendedor de enciclopédias começa a fumar um charuto e a atirar o fuma para a cara de Achmed. Tira um cinzeiro da algibeira, põe-no na mesa do centro da sala e observa enquanto o cinzeiro se reproduz e as réplicas começam a descer da mesa para o chão e rastejam de forma sinistra na direcção de Achmed.
Achmed tem medo, os cinzeiros começam a trepar por si acima, outros dispõem-se à sua volta para observar.
Os que trepam estão agora nos joelhos, Achmed treme, cobrem-no até à cintura, ao peito, cobrem-no todo, deixam-lhe só os olhos de fora.
Já não tem dúvidas sobre a verdadeira identidade do vendedor de enciclopédias. Os cinzeiros começam a falar uns com os outros e dentro em pouco apenas se ouve as suas vozes, cada vez mais altas e perturbantes.
Uma ordem seca do Coleccionador de Momentos fá-los calar-se.
À vozearia segue-se um silêncio assustador, como a calma que precede a tempestade.

Imagens de Her Wah atravessam-se na mente de Achmed.

De repente da casa de banho o patinho de borracha, o fiel companheiro de banho de Achmed, emerge para a sala, grita agitando à sua frente um frasco de After Shave. Os cinzeiros fogem a refugiar-se nos bolsos do colete do Criador de Momentos. As criaturas horrendas ajoelham-se tomadas de pavor.
O Coleccionador de Momentos pega numa esferográfica e desfere um golpe mortal no patinho de borracha que se desincha assobiando.
Entretanto o efeito mágico que a sua força exercia sobre Achmed pára por momentos, o que lhe permite agarrar o vendedor de enciclopédias pelo colarinho e expulsá-lo de casa.
A enciclopédia segue-o com a altivez da dignidade ferida.
As criaturas horrendas oferecem-se para ajudar Achmed a limpar a sala, o que este recusa. Vão se embora.

«Meu fiel patinho», geme Achmed.
Abeira-se dele e soergue-lhe a cabeça.
«É tarde, a mão fera do Coleccionador de Momentos pôs termo à minha participação neste folhetim, feliz por te ter salvo»
E morre.

Toca outra vez a campainha da porta.

A suivre…

Comments:
Fabuloso, este episódio! A couve roxa, a couve lombarda e a cenoura, o azeite, o sal, os orégãos, os pimentos, a noz moscada, mais os perfumes e a dança transformam eeste episódio num paraíso sensual que não merece a morte do pato. O pato não pode morrrer, peeeeeleaseeeee! Ó criador, não podes ressuscitar o pato?
 
Só para ti.
Noutra versão, noutro planeta, noutro tempo, o pato morre e acabou-se.
 
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