Monday, January 23, 2006
As Aventuras do Príncipe Achmed (versão não autorizada) Parte XI, A Vingança do Coleccionador de Momentos
O Coleccionador de Momentos ligou o Espelho Mágico que tinha por cima do lavatório na casa de banho e que o fazia parecer mais novo, mais mau, mais inteligente ou menos isso tudo com o rodar de uma espécie de reóstato de qualidades e sintonizou o modo de pesquisa.
Acedeu a um motor de busca e seleccionou Achmed. Estranhamente apenas aparecia uma referência em vez dos milhares que procurava.
«Espelho meu, diz-me, o que é que se passa com as minhas criaturas? Onde estão os outros Achmeds?»
Que se tinham reintegrado, disse-lhe o espelho, que Achmed retomou o curso do tempo, ajudado por Her Wah. Provou a Romã da ciência, agora não quer outra coisa.
O Coleccionador de momentos pensou em largar o Projecto Achmed e criar outro, assim a modos que mais subserviente. Mas não podia ser, era um Coleccionador de Momentos conhecido pelo seu mau feitio e não podia perdoar.
Não podia perdoar nem a ele nem a Her Wah. Quem a mandara revoltar-se e dar a provar a Romã?
«Que fazer? Multiplicá-la? Não, já sei.»
Her Wah sentiu-se presa ao chão. Onde ainda agora as sandálias descobriam uns pés bem tratados havia raízes. O vento, a leve brisa, dobrava-a pela cintura, e se se pudesse ver saberia que onde pouco antes estava a cara se inseriam agora pétalas coloridas que desafiavam o passante menos avisado a colhê-la, a ceifá-la.
Com cinismo o coleccionador dispôs-se a regá-la.
Achmed foi para casa. Pelo menos tentou ir. Estava em Paris e tinha perdido o comboio. O fenómeno de Roma repetia-se, as pessoas falavam outras línguas que não entendia.
Perdido em Paris. Pelo menos não estava perdido em Kinshasa ou em Islamabad, seria pior. Ali havia elevadores.
Não que a sua raiva em relação a esses monstros tivesse diminuído, mas não estava a ver outra maneira de chegar a casa senão entrar num e esperar que fosse ter a algum lado.
Procurou um elevador.
No meio da praça em que estava havia vários, como se fossem táxis à espera de cliente. Elevadores de cores variadas, uns pintados como se fossem carrosséis de um circo que tivesse ficado esteticamente no século XVIII, com anjinhos barrocos azuis e cavalos encarnados a empinar-se, outros vestidos de fantasia como se fossem participar num estranho Carnaval de elevadores.
Escolheu um pelo cheiro. Um cheiro a flor misteriosa. Desde há alguns minutos que sentia a necessidade daquele cheiro, agora encontrava-o. Resolveu segui-lo e entrou no elevador. Lá dentro um corredor e o perfume apontava-lhe o caminho como uma seta, dirigiu-se ao fundo do corredor e encontrou uma porta pequena, estranhamente não junto ao chão mas a cerca de 50 cm de altura em relação a este. Forçou o corpo a passar por lá encolheu-se todo e do outro lado um sol radioso iluminava uma paisagem de protector de écran de computador, assim prados, céu azul e flores. Estava molhado e gritou de contentamento por sair para o ar livre.
O perfume atraía-o tenazmente, obrigava-o a segui-lo a procurar a sua fonte. No meio do prado, sem hesitação encontrou-a. Uma flor, singela, azul, lembrava-lhe Her Wah.
Não sou eu, estúpido, disse-lhe a flor azul para sua vergonha, é a encarnadinha aqui ao lado, estás constipado?
De facto ao lado da azul descarada uma flor encarnada mostrava as suas pétalas ruborizadas. Era de facto Her Wah.
«Como é que vieste parar aqui?»
O Coleccionador de Momentos, explicou ela. Quer fazer um herbário, quer arrancar-se e pôr-me a secar entre as pétalas de um livro, disse-lhe.
«Mas as pétalas dos livros estão mortas, representam momentos passados.»
E depois há a questão de que tipo de livro se trata. Imagine-se Her Wah enfiada num manual de Direito das Obrigações, a servir de marcador numa comédia, a secar as lágrimas de uma donzela num dramalhão tipo telenovela.
Não, leitor amigo, não vou permitir que isso aconteça, Her Wah vai safar-se desta, prometo-lhe, a si e a Achmed, que por sua vez começa a sentir qualquer coisa pela moça, nem que seja por causa do perfume.
O Coleccionador de Momentos dirigiu-se ao prado para regar as flores que lá prendera, as azuis por maus pensamentos e as encarnadas também, as azuis por causa dos delas, as encarnadas por causa dos seus.
Viu Achmed e estacou.
A suivre
Acedeu a um motor de busca e seleccionou Achmed. Estranhamente apenas aparecia uma referência em vez dos milhares que procurava.
«Espelho meu, diz-me, o que é que se passa com as minhas criaturas? Onde estão os outros Achmeds?»
Que se tinham reintegrado, disse-lhe o espelho, que Achmed retomou o curso do tempo, ajudado por Her Wah. Provou a Romã da ciência, agora não quer outra coisa.
O Coleccionador de momentos pensou em largar o Projecto Achmed e criar outro, assim a modos que mais subserviente. Mas não podia ser, era um Coleccionador de Momentos conhecido pelo seu mau feitio e não podia perdoar.
Não podia perdoar nem a ele nem a Her Wah. Quem a mandara revoltar-se e dar a provar a Romã?
«Que fazer? Multiplicá-la? Não, já sei.»
Her Wah sentiu-se presa ao chão. Onde ainda agora as sandálias descobriam uns pés bem tratados havia raízes. O vento, a leve brisa, dobrava-a pela cintura, e se se pudesse ver saberia que onde pouco antes estava a cara se inseriam agora pétalas coloridas que desafiavam o passante menos avisado a colhê-la, a ceifá-la.
Com cinismo o coleccionador dispôs-se a regá-la.
Achmed foi para casa. Pelo menos tentou ir. Estava em Paris e tinha perdido o comboio. O fenómeno de Roma repetia-se, as pessoas falavam outras línguas que não entendia.
Perdido em Paris. Pelo menos não estava perdido em Kinshasa ou em Islamabad, seria pior. Ali havia elevadores.
Não que a sua raiva em relação a esses monstros tivesse diminuído, mas não estava a ver outra maneira de chegar a casa senão entrar num e esperar que fosse ter a algum lado.
Procurou um elevador.
No meio da praça em que estava havia vários, como se fossem táxis à espera de cliente. Elevadores de cores variadas, uns pintados como se fossem carrosséis de um circo que tivesse ficado esteticamente no século XVIII, com anjinhos barrocos azuis e cavalos encarnados a empinar-se, outros vestidos de fantasia como se fossem participar num estranho Carnaval de elevadores.
Escolheu um pelo cheiro. Um cheiro a flor misteriosa. Desde há alguns minutos que sentia a necessidade daquele cheiro, agora encontrava-o. Resolveu segui-lo e entrou no elevador. Lá dentro um corredor e o perfume apontava-lhe o caminho como uma seta, dirigiu-se ao fundo do corredor e encontrou uma porta pequena, estranhamente não junto ao chão mas a cerca de 50 cm de altura em relação a este. Forçou o corpo a passar por lá encolheu-se todo e do outro lado um sol radioso iluminava uma paisagem de protector de écran de computador, assim prados, céu azul e flores. Estava molhado e gritou de contentamento por sair para o ar livre.
O perfume atraía-o tenazmente, obrigava-o a segui-lo a procurar a sua fonte. No meio do prado, sem hesitação encontrou-a. Uma flor, singela, azul, lembrava-lhe Her Wah.
Não sou eu, estúpido, disse-lhe a flor azul para sua vergonha, é a encarnadinha aqui ao lado, estás constipado?
De facto ao lado da azul descarada uma flor encarnada mostrava as suas pétalas ruborizadas. Era de facto Her Wah.
«Como é que vieste parar aqui?»
O Coleccionador de Momentos, explicou ela. Quer fazer um herbário, quer arrancar-se e pôr-me a secar entre as pétalas de um livro, disse-lhe.
«Mas as pétalas dos livros estão mortas, representam momentos passados.»
E depois há a questão de que tipo de livro se trata. Imagine-se Her Wah enfiada num manual de Direito das Obrigações, a servir de marcador numa comédia, a secar as lágrimas de uma donzela num dramalhão tipo telenovela.
Não, leitor amigo, não vou permitir que isso aconteça, Her Wah vai safar-se desta, prometo-lhe, a si e a Achmed, que por sua vez começa a sentir qualquer coisa pela moça, nem que seja por causa do perfume.
O Coleccionador de Momentos dirigiu-se ao prado para regar as flores que lá prendera, as azuis por maus pensamentos e as encarnadas também, as azuis por causa dos delas, as encarnadas por causa dos seus.
Viu Achmed e estacou.
A suivre
Comments:
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OLá! Também eu estou cheia de curiosidade em saber se Her Wah se vai safar desta, mas o ideal seria que, além de se safar conseguisse o coleccionador de momentos libertar as flores assim se libertando também. De resto, as flores só estão ali para ele perceber isso, porque quando elas quiserem é só pegarem no canteiro e seguirem! :-) Um abraço, amigo! Está muuuuuito gira, a tua história. e ainda bem que esta versão é não autorizada, porque as versões autorizadas não têm graça nenhuma!
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