Thursday, January 19, 2006
As Aventuras do Príncipe Achmed (versão não autorizada) Parte X, Sob o Signo do Capricórnio
Ondas de Achmeds afluíam a Paris. Em filas compactas marchavam para os cais do Sena em busca de Nicodemus. Obcecados não paravam nem para comprar doughnuts, ordenadamente seguiam em busca da fonte do conhecimento, paravam nos semáforos, portavam-se bem, sem alegria, sem demonstrações menos solenes mas com o cenho carregado de obstinação crua.
As pessoas paravam para os ver, milhares de homens iguais, tão iguais como uma pessoa pode ser igual a si própria, em formação ordenada, sem parar para tomar café, não é coisa de todos os dias, nem sequer em Paris.
Quando o topo da fila alcançou o Rio Nicodemus viu a massa humana que se aproximava da outra margem.
Um compasso de espera.
A primeira fila esboçou uma tentativa de parar mas empurrada pelas de trás continuou em frente. Nadavam agora esboçando figuras geométricas na água em natação sincronizada, cada fila a sua como constelações criadas para o momento.
Nicodemus viu aquilo e julgou estar a ser vítima de uma ilusão. Como ainda não tinha comido nada nesse dia resolveu ir comprar uma baguette.
Quando Achmed alcançou o barco de Nicodemus este não estava, tinha ido à padaria.
Continuaram assim os Achmeds a desenhar constelações na água até que ele chegasse. E foi preciso aguardar que o barco se encontrasse sob o signo de Capricórnio e todos os Achmeds se encontrassem na água até que Nicodemus fizesse uma entrada monumental.
Surgiu como que do nada sobre a margem do Rio, vindo da padaria.
O seu porte altivo, a boina basca puxada para a esquerda, a baguette debaixo do braço, tudo nele indicava o caminho da sabedoria.
Olhou para o Rio e dominou-o admirando o espectáculo.
“Estado do Rio: Constelado, sob o signo de Capricórnio formam-se estrelas humanas à superfície. A humanidade geométrica.” Pensou isto em voz alta e preparou-se para emitir a mensagem urbi et orbi.
Achmed, em todas as suas pessoas, parara e olhava-o admirativamente.
Esperava a palavra do sábio.
Este transmitiu-a e Achmed compreendeu que o propósito da sua peregrinação fora o de constelar-se e desenhar a imagem do mundo em figuras universalmente acessíveis.
Olhou para a sua forma e saiu do Rio, em filas reordenadas. Parou para reflectir-se na água após o banho purificador e subitamente teve fome.
Uma rapariga passou, um cuco na mão esquerda, uma romã na mão direita.
A Romã abriu-se e a rapariga começou a distribuir os bagos aos Achmeds presentes.
À medida que estes os engoliam unificavam-se. Os Achmeds iam desaparecendo como imagens projectadas em espelhos que se quebram, sobrando cada vez menos até ficar só um.
Reintegrado Achmed agradeceu à rapariga a dádiva da Romã e perguntou-lhe como se chamava. Her Wah, disse ela numa voz que combinava com a profundidade dos olhos escuros e redondos.
«Como posso agradecer-te o que fizeste por mim?»
«Sou eu quem te agradece. Andava perdida e sem saber o que fazer. Quando te vi a sair da água em filas, a estacionar em formação tão perfeita aqui na margem do Rio lembrei-me que tinha de distribuir a Romã. Lembrei-me da razão de ter uma romã na mão e dei-ta. Agora tenho uma pista sobre quem sou, por isso te agradeço.»
«Pelo que vejo demos o eu cada um ao outro, mas esse é o significado das grandes coisas, o devolver-nos a nós próprios. És um anjo?»
Entretanto o Coleccionador de Momentos nada satisfeito com a intervenção da Romã preparava a vingança.
A suivre
As pessoas paravam para os ver, milhares de homens iguais, tão iguais como uma pessoa pode ser igual a si própria, em formação ordenada, sem parar para tomar café, não é coisa de todos os dias, nem sequer em Paris.
Quando o topo da fila alcançou o Rio Nicodemus viu a massa humana que se aproximava da outra margem.
Um compasso de espera.
A primeira fila esboçou uma tentativa de parar mas empurrada pelas de trás continuou em frente. Nadavam agora esboçando figuras geométricas na água em natação sincronizada, cada fila a sua como constelações criadas para o momento.
Nicodemus viu aquilo e julgou estar a ser vítima de uma ilusão. Como ainda não tinha comido nada nesse dia resolveu ir comprar uma baguette.
Quando Achmed alcançou o barco de Nicodemus este não estava, tinha ido à padaria.
Continuaram assim os Achmeds a desenhar constelações na água até que ele chegasse. E foi preciso aguardar que o barco se encontrasse sob o signo de Capricórnio e todos os Achmeds se encontrassem na água até que Nicodemus fizesse uma entrada monumental.
Surgiu como que do nada sobre a margem do Rio, vindo da padaria.
O seu porte altivo, a boina basca puxada para a esquerda, a baguette debaixo do braço, tudo nele indicava o caminho da sabedoria.
Olhou para o Rio e dominou-o admirando o espectáculo.
“Estado do Rio: Constelado, sob o signo de Capricórnio formam-se estrelas humanas à superfície. A humanidade geométrica.” Pensou isto em voz alta e preparou-se para emitir a mensagem urbi et orbi.
Achmed, em todas as suas pessoas, parara e olhava-o admirativamente.
Esperava a palavra do sábio.
Este transmitiu-a e Achmed compreendeu que o propósito da sua peregrinação fora o de constelar-se e desenhar a imagem do mundo em figuras universalmente acessíveis.
Olhou para a sua forma e saiu do Rio, em filas reordenadas. Parou para reflectir-se na água após o banho purificador e subitamente teve fome.
Uma rapariga passou, um cuco na mão esquerda, uma romã na mão direita.
A Romã abriu-se e a rapariga começou a distribuir os bagos aos Achmeds presentes.
À medida que estes os engoliam unificavam-se. Os Achmeds iam desaparecendo como imagens projectadas em espelhos que se quebram, sobrando cada vez menos até ficar só um.
Reintegrado Achmed agradeceu à rapariga a dádiva da Romã e perguntou-lhe como se chamava. Her Wah, disse ela numa voz que combinava com a profundidade dos olhos escuros e redondos.
«Como posso agradecer-te o que fizeste por mim?»
«Sou eu quem te agradece. Andava perdida e sem saber o que fazer. Quando te vi a sair da água em filas, a estacionar em formação tão perfeita aqui na margem do Rio lembrei-me que tinha de distribuir a Romã. Lembrei-me da razão de ter uma romã na mão e dei-ta. Agora tenho uma pista sobre quem sou, por isso te agradeço.»
«Pelo que vejo demos o eu cada um ao outro, mas esse é o significado das grandes coisas, o devolver-nos a nós próprios. És um anjo?»
Entretanto o Coleccionador de Momentos nada satisfeito com a intervenção da Romã preparava a vingança.
A suivre