Sunday, January 15, 2006

 

As Aventuras do Príncipe Achmed (versão não autorizada) Parte VIII

PRÍNCIPE HAMAD OU EXTRACTO DE ROMÃ
8 episódio: Uma rapariga. Se calhar é ela que junta a cor vermelha da paixão às pontas de cigarro. Corresponde-se via net com Achmed. Aparece o fantasma de um cão.

O relato completo pode ser encontrado no Blog da autora, Risoleta Pinto Pedro, http://www.risocordetejo.blogspot.com/

As Aventuras do Príncipe Achmed
(versão não autorizada)

Parte VIII Her Wah.

Olhou a Romã, o cuco e os lábios carregados de baton. Como te chamas?
Que se chamava Her Wah, não se lembrava muito bem como tinha chegado ali ou quem a trouxera.
Tinha uma vaga ideia de uma viagem de autocarro em que dormira durante quase todo o caminho, mas não muito mais.
Sabia que se chamava Her Wah e que devia beijar os bonequinhos de barro. Também ela ficara surpreendida ao ver que eles ganhavam vida e saíam para a Rua.
O cuco achara-o perdido e tivera pena dele, tinha-o consigo para o aquecer, pois lhe parecia que o bichinho tremia de frio.
A romã representava a plenitude dos frutos, a generosidade da Terra no fim do Verão, e usava-a para lhe recordar a sua condição de fruto da terra também ela.
Achmed julgara ter encontrado o coleccionador de momentos, mas Her Wah parecia-lhe agora apenas mais um instrumento nas mãos deste, como ele próprio.
Her Wah lembrava-se vagamente de ser de Campo de Ourique mas pouco mais. Do coleccionador nunca ouvira falar, não sabia se era ela a musa dos cinzeiros.
Saíram da casinha e encontraram-se face a uma multidão de Achmeds que os olhavam em busca de uma explicação que não tinha para se dar a si próprio.
Pelo menos a produção de Achmeds parara por um momento.
Mas os que havia já eram um batalhão, havia que dar que fazer a tantos eus sob pena de o mundo interior de Achmed ser esmagado por uma onda de egocentrismo que ocasionalmente se formasse.
Achmed resolveu partir a correr mundo em busca do coleccionador de momentos.
Comunicou essa decisão a si usando um megafone para se poder ouvir a si próprio, tal era a multidão de si que o coleccionador gerara.
A decisão foi partilhada por si e todos os Achmeds se muniram de uma mochila, um saco-cama, um cantil e partiram à demanda do coleccionador de momentos.
Tentaram dizer palavras de encorajamento uns aos mesmos mas nessa altura verificaram que já não falavam qualquer língua comum.
Abraçaram-se apenas, com emoção.
Her Wah ficou só e triste. Resolveu bordar uma colcha enquanto o esperava.

Uns foram por mar, outros por terra, outros ainda criaram asas e acompanharam as andorinhas na sua migração para África.

Um destes encontrou uma máscara muito bela na África Central e resolveu levá-la para o seu escritório de Roma, que ficava nas traseiras de um elevador.
Falava com ela muitas vezes e perguntava-lhe pelo coleccionador. A máscara respondia-lhe com frases de entendimento inexpugnável como fortalezas medievais.
«Máscara minha, diz-me tu, sabes quem é o coleccionador?»
«É favor introduzir uma moeda na ranhura indicada na parte 3 p) das instruções.»
«E sabes onde mora?»
«Ao terceiro sinal serão 14 horas e cinquenta minutos»
«Diz-me ao menos se algum dia me poderei encontrar a mim próprio»
«Gostei muito de o servir»

Claro que estas frases enigmáticas são de difícil interpretação.
Com o tempo uma ideia brilhante iluminou-o e resolveu criar um negócio: As pessoas vinham ao seu escritório e pagavam para consultar a máquina. Como as respostas às perguntas eram de difícil entendimento Achmed prontificava-se a auxiliá-las na compreensão destas.
Esse auxílio era prestado com criatividade, de modo que também ele com o tempo se transformou num coleccionador de momentos, os que criava.

Dos que partiram por mar a maioria não voltou, encontrou a sua versão pessoal do Canto IX dos Lusíadas, ou um emprego melhor que o de obstetra em Roma e por lá ficaram, onde calhou, coleccionando novos mundos ao mundo.

Por terra os caminhos eram duros e difíceis.

Uns foram a pé, outros de carro, outros de bicicleta e outros ainda de comboio.

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