Friday, January 13, 2006
As Aventuras do Príncipe Achmed (versão não autorizada) Parte VII
PRÍNCIPE HAMAD OU EXTRACTO DE ROMÃ
7 episódio: Piero descobre que é procurado sob o nome de Prince Hamad Bin Maktoum e que os cinzeiros são substituíveis, as raparigas que ungem as pontas de cigarro com baton não.
O relato completo pode ser encontrado no Blog da autora, Risoleta Pinto Pedro, http://www.risocordetejo.blogspot.com/
As Aventuras do Príncipe Achmed
(versão não autorizada)
Parte VII
A. Ligou o televisor e olhou: Reconheceu a imagem do seu pai, já falecido há muitos anos, que dava uma entrevista sobre uma criança desaparecida.
A câmara faz um zoom sobre uma fotografia e aí está ele, criança, sorridente e vestido para a primeira comunhão.
Diz o pai que a criança se chama Achmed, como ele, e que desapareceu pouco depois da fotografia ter sido tirada.
Tirada foi, pensou, de um baú de memórias, já nem me lembrava de ter usado um lacinho, já nem me lembrava de ser assim tão jovem.
O coleccionador de momentos fora cruel. Dispersara-o em futuros divergentes e agora fazia-os convergir de novo.
Telefonou para a estação de televisão e avisou que sabia da criança.
A produção ficou alvoroçada, pediram-lhe que não desligasse e puseram-no em contacto com o pai, ao vivo:
«Pai?»
«Quem é o Senhor?»
«Sou o Achmed, pai.»
«Não pode ser, o meu filho é uma criança e o Senhor é um adulto.»
«Mas sou eu, pai, eu reconheço-o a si, a criança na fotografia sou eu, é a minha imagem no dia da primeira comunhão, lembra-se? O tio Zé bebeu muita cerveja e pegou a discutir com a tia. Ela insistia que tinham de apanhar um táxi e ele que estava óptimo para conduzir e acabaram por ir cada um para seu lado e ainda hoje lá devem estar. E o bolo tinha uma cobertura de bagos de romã e a avó deu-me um relógio que no dia seguinte me roubaram na escola, lembra-se?»
«És mesmo tu, Achmed?»
«Pai!»
Resolveu ir ter com o pai.
Falou com o alter-ego e este, de lágrima no canto do olho, reconheceu que embora o pai na realidade tivesse falecido o que acabara de ver convencera-o a procurá-lo.
Chamaram os bombeiros e tiraram o outro Achmed que estava no alto do poste, explicaram-lhe a situação e foram os três ao encontro do pai.
Este estava ainda no estúdio da televisão.
Chegados lá disseram-lhes que o pai estava no sexto andar e dirigiram-nos para o elevador.
Que não, que iam pelas escadas.
À frente o Achmed em melhor forma física, depois por ordem de capacidade atlética, os outros.
Chegaram ao sexto andar e encontraram o pai. Este abraçou o primeiro a chegar, momento que uma câmara lacrimejante não deixou de fixar.
Mas depois chegou o outro e outro ainda e o pai não cabia em si de contente. Recuperar um filho é uma boa notícia, mas logo três.
O problema é que Achmed não parava de subir as escadas, cada vez chegavam mais ao sexto andar.
O coleccionador de momentos sentira-se tão feliz com o reencontro que o multiplicava.
B. Ligou o televisor e olhou: No princípio era uma névoa distante mas depois toda a sua infância lhe desfilou ante os olhos.
As quedas da bicicleta, as reguadas na escola, o peito da empregada, o bibe azul, tudo o que era importante.
Ouve lá, disse-lhe o alter-ego, a tua infância é a mesma que a minha? Estás recordado das quedas da bicicleta, das reguadas na escola, do peito da empregada, do bibe azul?
Que sim, que estava, e do comboio eléctrico que o tio Zé me deu. - Que sim, também me lembro.
E lembras-te da carraspana que ele apanhou na minha primeira comunhão? – Olha se não me lembro…
A secretária em que o alter-ego estava sentado transformou-se num posto de comando de helicóptero e saíram os dois em busca de mais eus, a começar pelo que estava pendurado no poste.
Recolhido este resolveram ir verificar se havia mais.
Saíram do helicóptero e desceram à cidade.
«As ruas estão pejadas de mim!» disse um deles.
E de facto todas as pessoas que viam eram afinal ele próprio.
Parecia todo ele vir do mesmo local, uma pequena porta numa casa de dos andares no fim da rua.
A porta era tão pequena e estreita que tinham de sair curvados.
Achmed esperou um pequeno intervalo e aproveitou «com licença» para entrar.
Lá dentro a rapariga da romã e do cuco pegava em pequenas estátuas de barro, beijava-as, deixando-lhe uma marca de baton, e dava-lhes vida, formava novos Achmeds.
C. Ligou o televisor e olhou: Nada de especial.
«Tens de deixar passar os anúncios».
Num canal de cabo que não reconheceu um locutor de voz grave explicava qualquer coisa naquele tom triste dos comentadores desportivos quando a selecção está a perder.
Mas era a imagem que o fascinava:
A sua própria imagem dava corpo a um sarcófago colorido em tons turquesa e laranja.
Aberto o sarcófago, levantada a tampa, outro igual surgia por dentro, e mais uma vez e outra e outra.
O estranho é que os sarcófagos não iam ficando mais pequenos, eram todos do mesmo tamanho.
Nessa altura o locutor dizia qualquer coisa no tom de que a selecção acaba de marcar um golo, empatou o jogo e atira-se para a frente, mas Achmed não percebia nada, embora a língua não lhe fosse estranha não conseguia perceber o que era dito.
E continuavam a aparecer sarcófagos com a sua imagem.
A suivre…
7 episódio: Piero descobre que é procurado sob o nome de Prince Hamad Bin Maktoum e que os cinzeiros são substituíveis, as raparigas que ungem as pontas de cigarro com baton não.
O relato completo pode ser encontrado no Blog da autora, Risoleta Pinto Pedro, http://www.risocordetejo.blogspot.com/
As Aventuras do Príncipe Achmed
(versão não autorizada)
Parte VII
A. Ligou o televisor e olhou: Reconheceu a imagem do seu pai, já falecido há muitos anos, que dava uma entrevista sobre uma criança desaparecida.
A câmara faz um zoom sobre uma fotografia e aí está ele, criança, sorridente e vestido para a primeira comunhão.
Diz o pai que a criança se chama Achmed, como ele, e que desapareceu pouco depois da fotografia ter sido tirada.
Tirada foi, pensou, de um baú de memórias, já nem me lembrava de ter usado um lacinho, já nem me lembrava de ser assim tão jovem.
O coleccionador de momentos fora cruel. Dispersara-o em futuros divergentes e agora fazia-os convergir de novo.
Telefonou para a estação de televisão e avisou que sabia da criança.
A produção ficou alvoroçada, pediram-lhe que não desligasse e puseram-no em contacto com o pai, ao vivo:
«Pai?»
«Quem é o Senhor?»
«Sou o Achmed, pai.»
«Não pode ser, o meu filho é uma criança e o Senhor é um adulto.»
«Mas sou eu, pai, eu reconheço-o a si, a criança na fotografia sou eu, é a minha imagem no dia da primeira comunhão, lembra-se? O tio Zé bebeu muita cerveja e pegou a discutir com a tia. Ela insistia que tinham de apanhar um táxi e ele que estava óptimo para conduzir e acabaram por ir cada um para seu lado e ainda hoje lá devem estar. E o bolo tinha uma cobertura de bagos de romã e a avó deu-me um relógio que no dia seguinte me roubaram na escola, lembra-se?»
«És mesmo tu, Achmed?»
«Pai!»
Resolveu ir ter com o pai.
Falou com o alter-ego e este, de lágrima no canto do olho, reconheceu que embora o pai na realidade tivesse falecido o que acabara de ver convencera-o a procurá-lo.
Chamaram os bombeiros e tiraram o outro Achmed que estava no alto do poste, explicaram-lhe a situação e foram os três ao encontro do pai.
Este estava ainda no estúdio da televisão.
Chegados lá disseram-lhes que o pai estava no sexto andar e dirigiram-nos para o elevador.
Que não, que iam pelas escadas.
À frente o Achmed em melhor forma física, depois por ordem de capacidade atlética, os outros.
Chegaram ao sexto andar e encontraram o pai. Este abraçou o primeiro a chegar, momento que uma câmara lacrimejante não deixou de fixar.
Mas depois chegou o outro e outro ainda e o pai não cabia em si de contente. Recuperar um filho é uma boa notícia, mas logo três.
O problema é que Achmed não parava de subir as escadas, cada vez chegavam mais ao sexto andar.
O coleccionador de momentos sentira-se tão feliz com o reencontro que o multiplicava.
B. Ligou o televisor e olhou: No princípio era uma névoa distante mas depois toda a sua infância lhe desfilou ante os olhos.
As quedas da bicicleta, as reguadas na escola, o peito da empregada, o bibe azul, tudo o que era importante.
Ouve lá, disse-lhe o alter-ego, a tua infância é a mesma que a minha? Estás recordado das quedas da bicicleta, das reguadas na escola, do peito da empregada, do bibe azul?
Que sim, que estava, e do comboio eléctrico que o tio Zé me deu. - Que sim, também me lembro.
E lembras-te da carraspana que ele apanhou na minha primeira comunhão? – Olha se não me lembro…
A secretária em que o alter-ego estava sentado transformou-se num posto de comando de helicóptero e saíram os dois em busca de mais eus, a começar pelo que estava pendurado no poste.
Recolhido este resolveram ir verificar se havia mais.
Saíram do helicóptero e desceram à cidade.
«As ruas estão pejadas de mim!» disse um deles.
E de facto todas as pessoas que viam eram afinal ele próprio.
Parecia todo ele vir do mesmo local, uma pequena porta numa casa de dos andares no fim da rua.
A porta era tão pequena e estreita que tinham de sair curvados.
Achmed esperou um pequeno intervalo e aproveitou «com licença» para entrar.
Lá dentro a rapariga da romã e do cuco pegava em pequenas estátuas de barro, beijava-as, deixando-lhe uma marca de baton, e dava-lhes vida, formava novos Achmeds.
C. Ligou o televisor e olhou: Nada de especial.
«Tens de deixar passar os anúncios».
Num canal de cabo que não reconheceu um locutor de voz grave explicava qualquer coisa naquele tom triste dos comentadores desportivos quando a selecção está a perder.
Mas era a imagem que o fascinava:
A sua própria imagem dava corpo a um sarcófago colorido em tons turquesa e laranja.
Aberto o sarcófago, levantada a tampa, outro igual surgia por dentro, e mais uma vez e outra e outra.
O estranho é que os sarcófagos não iam ficando mais pequenos, eram todos do mesmo tamanho.
Nessa altura o locutor dizia qualquer coisa no tom de que a selecção acaba de marcar um golo, empatou o jogo e atira-se para a frente, mas Achmed não percebia nada, embora a língua não lhe fosse estranha não conseguia perceber o que era dito.
E continuavam a aparecer sarcófagos com a sua imagem.
A suivre…
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Esperança é saber que em qualquer momento da vida é possível reencontrar o menino, a menina. Eternos.
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