Thursday, December 08, 2005

 

O Construtor de Mundos, desta vez o golfinho e os mares do Sul

Uma mulher, de manhã, sozinha em casa, a limpar os bibelots. Tinha muito empenho neles. A vida fora-lhe sempre madrasta e não melhorara nos últimos tempos.

Mesmo nesse dia o marido antes de ir para o trabalho lhe tivera de chamar a atenção mais uma vez para o facto de não saber cozinhar.
Nem o pequeno-almoço era capaz de fazer com jeito, tentara, desesperara, o marido empurrou-a para o lado e acabara por sair de casa só com uma chávena de café.
A filha olhava-a de esguelha, com ar de gozo.
Não sabia porquê mas a cumplicidade daqueles dois sempre a magoara.

Movida de uma réstia de esperança foi tentar abrir a torneira da água da casa de banho. Não deitava.

Já ontem o marido fechara a água no contador, fechara depois a caixa do contador com um cadeado e levara a chave consigo.

Chegado a casa à noite começou a implicar consigo por ser uma porca que nem tomava banho.

Já não se lembrava do tempo em que lhe custava ser tratada assim.
Esperara sempre que mudasse. Esperara que mudasse quando a filha nascera, mas não mudara.
Com o tempo também a filha passara a desprezá-la. Mandava nela, fazia má cara e não lhe perdoava qualquer erro.

O que lhe valia era as suas coisinhas, os bonequinhos de loiça que coleccionava com carinho, que limpava com ternura, a ternura que lhe devolviam ao serem tão queridos nas suas roupinhas de loiça, nas suas corezinhas fofas.

Os duendes, os golfinhos a saltar em mares quentes para onde a sua imaginação fugia e onde era considerada uma pessoa normal e as pessoas gostavam dela.
Bom dia Senhora D. Graça, diziam-lhe as vizinhas quando ia à praça comprar flores, Bom dia dizia-lhes ela com um sorriso. E voltava para a sua casinha limpa onde vivia com as suas loucinhas.

E sorria para o golfinho de loiça que por sua vez sorria para si.

Embalava-os. Faziam-na sonhar e perdoavam-lhe os defeitos.
Há pessoas que nascem assim, para sofrer.

O dia acabou por passar.
Perto do fim da tarde começou a ficar apreensiva.
Como viria ele hoje?
Maldisposto, a implicar consigo mal chegasse?

Ou indiferente, deixando-a mais um bocadinho com os seus sonhos?

Às vezes batia-lhe, mas não era costume.

Não entrou particularmente zangado.
Olhou para ela como se olhasse para mais uma peça da mobília daquelas de que não se gosta particularmente.

Teve medo de lhe perguntar como lhe correra o dia. Pelos visto teria corrido menos mal.

Pouco depois chegou a filha e foi dar um beijo ao pai.

Como o marido entretanto abrira a água foi tratar do jantar.

Foi no fim do jantar precisamente.
Que o arroz estava empapado.
Mesmo que não dissesse nada atirou-lhe um: «Que é que estás para aí a rosnar?»

Acalmou, mas de seguida foi a filha. Se a camisa branca já estava lavada.

Lavada como, não tinha água…

Pois que fosse à fonte, que se desenrascasse, não era a filha a trabalhar o dia todo para a sustentar, ali inútil, era pedir muito lavar ao menos uma camisa?

«Ó minha filha, não me fales assim que eu sou tua mãe»
- «Mãe?» - interveio ele - «Mãe?» - insistiu - «É isso que tu chamas ser mãe, a rapariga chega a casa de trabalhar e ainda tem de tratar das tarefas domésticas e a tal “mãe” o dia todo na boa-vai-ela? Nem uma camisa para a pobre da rapariga poder sair à noite lhe lava?»
«Realmente não prestas mesmo.»

Pediu desculpa a ver se as coisas acalmavam, mas qual o quê.

Desta vez foi a filha: «Estou farta de ti!»
Que estava farta da sua maneira de ser, de se armar em sonsa, de se armar em vítima, sempre às queixinhas. - «Arre, que já chateia!»
«Pois não queres saber das minhas coisas? Vais ver o que faço às tuas!»
Pegou primeiro num duende. Olhou para ele, de seguida para a mãe com um ar irónico e disse: - «Gostas deste?»
Empurrou-o para o chão.
Durante o tempo da queda a Graça ainda pensou que o boneco pudesse não partir, que uma mão milagrosa o amparasse e o mantivesse intacto.
Sem sorte, o impacto do bonequinho na tijoleira matou-o em três pedaços.
Pai e filha riram.
O Mundo começou a ficar enevoado, uma tontura fê-la manter-se no mesmo local.
A filha pegou noutro.
- «Não, o golfinho não! Esse não!»

O olhar da filha disse-lhe tudo, o respeito das vizinhas «Bom dia Senhora D. Graça», os mares quentes.
Viu-o cair na mesma direcção do duende, viu partir o seu amigo golfinho entre as risadas da filha e do marido.

Deu um grito e começou a fugir para fora de casa.

O marido e a filha correram a barrar-lhe o caminho, a força do desespero venceu-os, saiu para a rua, gritava, as vizinhas já habituadas aos gritos não ligaram, como era possível os seus bonequinhos, tão fofos, como era possível alguém matá-los daquela maneira, gritava em arranques de choro interrompidos por sonoras bofetadas do marido.

Foi o Manuel Ribeiro que interveio.
Ouviu os gritos, olhou pela janela, chamou a Polícia.
O marido queria que a mulher voltasse a entrar em casa, a filha puxava-a pelos cabelos para dentro.
Que não, que não ia, que queria ficar na rua, que não os queria mais ver.

Manuel Ribeiro acorreu.

Nessa altura já o marido lhe dizia que ela era uma tontinha, que só queriam o bem dela, que não devia incomodar os vizinhos daquela maneira, que gostava muito dela e que não a queria ver assim despenteada e descomposta na rua, parecia mal, «Vê lá bem a figura em que estás, vá lá não sejas teimosa, entra por favor.»

A mulher bem lhe dizia que não se metesse naquilo, que eram coisas entre marido e mulher, que não tinha nada a haver com aquilo e o que é que os outros vizinhos iam pensar dele, ainda iam dizer que estava interessado na mulherzinha, ela se apanha é porque fez alguma.

Mesmo assim foi lá.

Pegou na mulher por um braço e levou-a para casa.

O marido ainda tentou reagir mas ele encheu o peito de ar e fulminou-o com um olhar assassino - «Seu filho da puta, ponha-se a mexer, já chamei a polícia e agora é com eles.»

Comments:
Já gostas mais assim Risoleta?
 
Também não era preciso exagerar! :-) Eu nunca disse que não gostava! Ora um leitor já não pode ser interventivo! Afinal, estamos ou não perante uma história interactiva? Na volta este narrador ainda me vai acabar por culpar da desgraça de Graça!
Mas ok, posso com isso! Prossigamos!
 
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