Wednesday, December 21, 2005

 

Iogurte de sabor a morango e caracóis, IV. O Gajo da Voz Aflautada.

Foi um pequeno ruído que me alertou, um quase nada, como uma brisa a agitar as folhas da sebe, mas não havia vento e não se sobrevive tanto tempo como eu no reino dos caracóis sem que se esteja permanentemente atento a esse tipo de pormenores.

Fui ver e estava um gajo agachado a olhar para nós com ar esgazeado.

Parecia drogado a olhar para o pessoal que continuava a dançar à volta da fogueira desta vez creio que a celebrar não já a próxima vinda dos marcianos mas a vitória no campeonato nacional de futebol. Talvez um pouco de iogurte a mais.

Agarrei-o pelo cachaço e perguntei-lhe o que estava ali a fazer. Respondeu-me numa voz aflautada que tinha perdido o último comboio para casa e ia ficar por ali a ver se apanhava o primeiro da manhã.

Achei a explicação razoável. E perguntei-lhe se não queria juntar-se a nós entretanto. Agradeceu mas declinou e no momento em que declinou um reflexo azul no meio da sebe, a uns vinte metros do sítio onde estávamos, trouxe-me de novo à realidade.

Caracoletas azuis.

Tinham quase cercado o parque de estacionamento, os meus novos amigos estavam feitos e se não me escondia de imediato ia ter a mesma sorte.

Deitei-me para o chão e arrastei o tipo da voz aflautada comigo, mandei-o calar-se e empurrei-o para um murete que demarcava a sebe, mantendo-me junto a ele de modo a fazer o menor volume possível.

As caracoletas foram rápidas a actuar. Cercaram-nos e apanharam-nos. A um ou outro até o deixaram ter a ilusão de que iria conseguir escapar mas agarravam-no logo e juntavam-no ao resto deles.

Foi uma noite de pesadelo.
Confirmava-se que as caracoletas gostavam de grelhar as pessoas em lume brando.
Os gritos de dor prolongaram-se até de madrugada, altura em que as caracoletas, de barriga cheia se foram embora, deixando atrás de si um cheiro a carne queimada e a desespero.

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