Thursday, December 22, 2005

 

Iogurte com Morango e Caracóis,V Nada É O Que Parece

Eu e o tipo da voz aflautada mantivemo-nos quietos até as vermos partir.

Já com o Sol alto pude enfim olhá-lo. Trazia um bigode pintado e por entre as roupas mal amanhadas conseguia perceber-se que era uma mulher.

Uma mulher! Pensava que já nem havia. Por isso aquela sensação esquisita quando me encostava a ele junto do murete da sebe.

- «Vais abusar de mim?» -Perguntou-me.
- «Claro que não, tem calma.»
- «A última vez que encontrei esse bando aí abusaram de mim, por isso é que estava escondida atrás da sebe, para ver se ficavam tão cheios de iogurte que conseguisse matar algum, mas a ti não te reconheço dessa altura. Juntaste-te ao gang depois?»

Disse isto tudo e começou a vomitar.

- «Tu estás é grávida! Como é possível neste mundo? Uma mulher e ainda por cima grávida!»
«No mundo do horror da revolta dos caracóis!»

De facto olhando-se com atenção até se lhe notava uma barriguinha.

«Estás com fome?» – perguntei-lhe mais tarde.

Que sim, que estava, disseram-me os olhos dela. Levei-a para dentro do supermercado.
«Come o que te apetecer, eu vou fechar a entrada a ver se não temos surpresas.»

Desatou a comer e depois adormeceu.
Fui à secção de artigos de desporto e trouxe um saco cama com que a cobri.

Cheguei a preocupar-me com a despesa que estava a dar aos donos do supermercado, mas nessa altura sorri.

Uma criança. A humanidade ainda tem força suficiente para gerar uma criança. Afinal ainda há um futuro na nossa conjugação.

Acordou horas mais tarde, outra vez com fome.
Comeu e foi tomar um banho nas antigas instalações dos empregados do supermercado.

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