Monday, December 19, 2005

 

Dos Caracóis e do Iogurte com Sabor a Morango

II. A Cornucópia.

Foi então que reparei que havia um buraco bem tapado com uma fina parede de tijolos encostados uns aos outros que conduzia ao interior do edifício.

Entrei na escuridão. Acendi o isqueiro e vi-me como Ali Baba na caverna dos ladrões, o edifício era um supermercado.

Estava sistematicamente pilhado.
Por sistematicamente quero dizer que quem quer que o tivesse estado a pilhar o fazia com cuidado para não estragar as coisas, com cuidado para guardar para o futuro.

Finalmente, sinais de outros humanos perto de mim, não apenas passantes mas residentes (quem descobre uma mina de latas de feijão não passa para outro local, muda-se para as imediações).

Vieram-me as lágrimas aos olhos, acendi uma vela celebratória que estava numa prateleira e abri duas latas de atum de conserva e uma garrafa de cerveja.

Estava morna. Fui à procura de gelo.
Por um milagre qualquer podia ser que algum dos frigoríficos ainda funcionasse.
E havia um que funcionava.
Devia ser accionado por acumuladores que ainda não se tinham apagado.

Era de facto milagre.
Tanto mais que quando acendi outra vela e mirei o conteúdo do frigorífico quase que entrei em transe.

Caixas, montes de caixas, caixotes, quilos de iogurte com sabor a morango.

Esqueci logo o atum e a cerveja e comi pelo menos uma dúzia de iogurtes. Que saudade que eu tinha daquele sabor, daquele cheiro.

Calculo que tenha estado três dias a comer iogurte com sabor a morango pelo número de caixas que a certa altura encontrei junto de mim.
Custou-me muito acordar daquele sonho, como nos tempos em que a humanidade dominava o planeta e em que havia horários de trabalho e a gente se tinha deitado tarde e tinha de acordar para ir trabalhar e não apetecia nada, mas tinha de ser.

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