Saturday, December 10, 2005

 

Construtor de Mundos, Lágrimas e Perdões

No calor do momento Manuel Ribeiro não tivera tempo para reflectir sobre a atitude da mulher.

Quando voltou para dentro esta já se recompusera: «Como é que ficou a pobre da mulherzinha? É sempre assim quase todas as noites. Não lhe dão descanso, coitada.»

Ainda estava indignado, «brutamontes do caraças».
A mulher por sua vez dizia-lhe que alguém tinha que fazer alguma coisa, aquilo não podia continuar.

Há no entanto coisas que ficam cá dentro sem que se note que ficaram mas que lentamente produzem efeitos.

Logo que a indignação passou, que a testosterona voltou aos níveis normais, que conseguiu conciliar o sono, lá para o dia seguinte, a primeira reacção da mulher preocupou-o.
Não é que fosse uma grande preocupação, um abcesso insuportável, era, mais assim como que uma moínha na alma, uma coisa que estava presente e não estava, uma pergunta mais que outra coisa:
Onde estavam aqueles olhos que se cruzaram com os seus nas escadas?

Nos meses seguintes Manuel Ribeiro andou entretido com o assunto da vizinha.

Fizera um inimigo, o vizinho marido, começara a ver a sua própria mulher com outros olhos, mas não tinha tempo para pensar em tudo.
Preocupava-o a situação da mulherzinha. Tinham-na convencido a desistir da queixa contra o marido, ela voltara para casa e cada dia parecia mais acabrunhada.

Um dia matou-se. Enforcou-se de uma trave do tecto do anexo da casa com fio de cobre de electricidade.

Manuel Ribeiro sentiu-se culpado. - «Vês?» - dizia-lhe a mulher - «Se não te tens metido a mulherzinha ainda estava viva.»
De lado ficava o pormenor de que a vizinha já não estava viva há muito tempo, ainda ninguém tinha era dado por isso.

Esta atitude feriu-o profundamente.
Tentou protestar, mas do outro lado surgiu pela primeira vez desde que se tinham casado o insulto soez.

Assim «parvo!», «poltrão!» já lhe saíra, mas «filho da puta», assim a direito…

Saiu de casa a correr e foi beber umas cervejas ao café.

Quando voltou a mulher pediu-lhe amargamente desculpa, que não estava em si, que ele era um grande homem, que tinha tido toda a razão, mas que com tudo o que lhe vinha acontecendo ultimamente estava fora de si.
E chorava.
E o que é que um homem pode fazer quando uma mulher chora?

Perdoou-lhe claro.

Mas entre perdoar e esquecer há uma ponte. Uma ponte de pedra, bem sólida. Fica lá mesmo com as piores cheias.

No fundo Manuel gostava dela, apesar dos seus defeitos estava melhor com ela que sem ela.
E ela gostava dele, às vezes era um pouco desbocada, mas a situação iria com certeza melhorar quando deixasse de estar tão tensa.

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