Sunday, November 06, 2005

 

A Split Second

Parte primeira.

Por um erro de concepção do sistema, a que o coordenador local não esteve atento, um dos segundos da décima hora de 10 de Março de 2006 ocorreu com metade da duração dos restantes na latitude e longitude de Braga.

O fenómeno não foi comum a toda a cidade e devido à sua pequena dimensão apenas se tornou notado cerca das 11h00 quando no decorrer de uma conversa telefónica entre duas pessoas que se aguardavam mutuamente na Praça da Justiça verificaram que enquanto uma delas respondia com algum atraso a outra respondia antes mesmo da inflexão final da pergunta ter sido entoada.

Daí até verificarem que uma já via a outra a olhar para ela quando a outra de facto ainda não olhava foi um momento (com uma diferença para mais ou menos de meio segundo).

Antes que o governo tomasse conta do assunto e se começasse a pensar em criar uma hora legal desfasada o caso ainda se prestou a diversas crises pessoais.

Um homem, um insuspeito angariador de seguros, apanhado apenas parcialmente pelo fenómeno começou a ver duas imagens não simultâneas nas notícias na televisão.
Começou por fechar um olho a pensar que estava a ver a dobrar, como a dupla visão se manteve fechou o outro, mas o resultado foi o mesmo.

Fechou os olhos mas nessa altura foi o tique-taque descompassado do relógio mecânico que o perturbou.
Abriu os olhos e resolveu tentar outra vez.
Fixou uma flor que a mulher pusera numa jarra no dia anterior. A flor não se mexia.
Estou curado, pensou com alívio.

Ligou outra vez o televisor. E voltou a ver a imagem dobrada.
Será da televisão, pensou, mas quando olhou para o relógio para confirmar em que tempo estava viu o ponteiro do segundos a mover-se duas vezes.

Em sobressalto olhou para o écran com atenção: Não via a locutora duas vezes em imagens simétricas, via-a antes em tempos distintos, como se estivesse a ver o eco da imagem.

Um eco demasiado perfeito, porém, sem perder qualidades do original.

Uma senhora fazia compras na praça quando foi apanhada pelo desencontro do tempo.

Um gato.
Malhado e vadio.
Habitué de muros e caixotes do lixo, um gato sabedor, com gosto pela vida.

Gestor competente do tempo de atravessamento de arruamentos urbanos, sempre um pulo à frente dos automóveis.

Até um dia.
Quer dizer um segundo.
Ou ainda melhor, meio segundo. Foi o que lhe faltou para passar à frente de mais um Fiat Punto, desses azuis, normalíssimo.
Nem sequer ia depressa demais, o gato é que se atrasou.
Atrasou-se o meio segundo suficiente para em vez de passar ficar lá feito mancha no pavimento.
Daquelas feias de gordura, sangue e pelo, ossos e músculos, numa misturada cada dia mais cinzenta.

Na guerra do tempo a primeira vítima mortal foi um sábio gestor do tempo.
Nunca mais o Janeiro lhe mia nas veias, o Luar já não ilumina o seu perfil sobre os muros.

Uma senhora ainda fazia compras na praça quando foi apanhada pelo desencontro do tempo.


Se o fenómeno que viria posteriormente a ser conhecido como o “Split Second de Braga” se deveu a um erro do sistema e a uma distracção do coordenador já os factos ocorridos no dia seguinte em Lisboa não tiveram uma origem tão inocente.

Pode-se argumentar com a falta de atenção no recrutamento, o défice moral que atravessa o mundo, ou a imponderabilidade que coroa qualquer sistema, a sua margem de erro, mas isso não invalida a terceira lei de Murphy: Se algo pode correr mal esse algo vai mesmo correr mal.

E correu mal, mesmo mal, o episódio de Lisboa.

Teve o seu epicentro em Campo de Ourique, como não podia deixar de ser.

O coordenador local foi duramente punido, mas o mal estava feito, que é como quem diz, o mal estava à solta.

O segundo passou a valer 1.6180339887 segundos no Jardim da Parada, atenuando-se o efeito à medida que se afastava do lago dos patos.

Assim, na Estrela ou nas Amoreiras o segundo valia ainda 1,43 segundos em relação ao Tempo Universal, na Lapa o afastamento era menor, o segundo durava 1,112 segundos.

O efeito não era neste caso pessoal, interno, não variava na percepção das pessoas, variava localmente.
Assim o desfasamento temporal era visível de fora.

Na esplanada da “Tentadora” o café demorava 1.6180339887 mais tempo a arrefecer visto através das reportagens da televisão que num café da Baixa.

Os reformados e os seus carrinhos de compras andavam com uma lentidão que fazia lembrar férias e outras paragens.

Mas se isto era verdade para os reformados não o era para o Sol.
Este continuava a passear o seu movimento aparente à velocidade do costume, indiferente às criancices dos coordenadores temporais do espaço terrestre.

Daí que embora os relógios (os de pulso, os de parede, os despertadores, os de corda, os eléctricos, os de cristal, os digitais, os tradicionais, as clepsidras e as ampulhetas) indicassem a hora do local em que eram consultados, o Sol não.

Começou a ser meio-dia às seis da tarde, as pessoas almoçavam de noite, os putos vinham da escola ao raiar da Aurora, até os patos do lago do jardim andavam confundidos.

"Chove no meu fuso horário e molha-me os estados de alma" clamava um poeta no coreto.

As pessoas começavam a falar sobre o tempo com um significado mais actual. O “este tempo frio dá-me cabo dos ossos” foi sendo substituído pelo “que horas achas que são no Rossio?”

«Como é que estava o tempo no Algarve?»
- «Atrasado.»
- «O tempo já não é o que era, já não há estações, sempre a atrasar e a adiantar!» Era um desabafo comum.

Fartas da situação as pessoas começaram a movimentar-se.

Mas antes delas os anjos.
Porque era deles que se tratava.

Por razões salariais, por falta de previsão, porque queriam pôr o presidente do sindicato como chefe no lugar do chefe, para demonstrar a necessidade da sua existência e a importância do seu lugar de trabalho, por isto tudo junto, organizaram-se no sentido de desorganizar o tempo.

Ou de o organizar num sentido caótico.

Comments:
Estranha sensação de "dé-jà vu"... :-)
Moral da história: Existe um modo diferente de olhar o mundo. E de sofrer o tempo.
 
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