Monday, November 21, 2005

 

Pôr do Sol na Cidade

De repente o céu tornou-se amarelo, como se um manto sépia de fotografia antiga tivesse recoberto o mundo com a cor própria dos parentes falecidos.

Um raio de Sol luta por penetrar na opacidade urbana.
Sentem-no as varandas dos andares de cima dos prédios mais altos que se iluminam em aplauso desse esforço.

As nuvens começam a ganhar contornos no cinzento generalizado.
Dizem eu sou esta, eu sou aquela, o vento leva-me a passear o meu esplendor.
Partem devagarinho, num adeus prolongado como um suspiro de saxofone, aproveitam a força da claridade que morre para ganhar vida por um momento antes que a noite as consuma no seu fogo escuro.

As ruas respondem iluminando-se umas e escondendo-se as outras em tabuleiros ortogonais.Os carros hesitam sobre se hão de acender os faróis até que se convencem que este dia já não volta, que já não volta nunca mais, à medida que o sépia se transforma em roxo e tudo volta ao normal.

Comments:
É o eclipse, quando Saturno desce à terra, imponente, e rivaliza com o sol. A lua assiste, os gatos assistem, as crianças observam, os poetas registam. E resistem.
 
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