Monday, November 07, 2005
O Buraco
O espantoso não foi encontrar um buraco, esses já ele conhecia bem.
A bem dizer o buraco pavimentar urbano é algo inerente à existência citadina, uma espécie de arrumador a quem não é preciso dar uma moedinha.
Mas aquele era diferente.
Não que fosse distinto dos outros por qualquer sinal visível. Redondo e feio, escuro e marcado por umas fitinhas coloridas a avisar: «Está aqui um buraco!»
Era outra coisa. Como uma aura de mistério que emanasse do buraco, nada de físico, de visível, de palpável, antes um sabor a intuição, digamos uma cor fora do arco-íris.
Aproximou-se, espreitou, e o que viu confirmou que o apelo que o buraco lhe transmitira não fora em vão.
Embora fosse noite escura, tanto quanto o permite a iluminação da cidade, no fundo do buraco via-se o céu. Não um céu qualquer, nocturno, estrelado, de Lua e tudo mas um céu diurno, azul, como se o buraco atravessasse a Terra e mostrasse o que se passava nos antípodes a essa hora.
Olhou à volta e como não visse ninguém resolveu descer. Agarrou as bordas do buraco com as mãos, teve cuidado para não sujar o casaco e as calças e começou a descer por uma espécie de escada encostada à parede.
Desceu três degraus e verificou que por cima já não tinha a noite iluminada da cidade mas que sem dar por ela, talvez enquanto piscava os olhos para os humedecer, era agora o céu azul que estava por cima de si.
Mais uns degraus e verificou que não estava já a descer a escada mas a subi-la na direcção do dia.
Mais rápido do que pensava possível acabou por atingir a orla do buraco.
Espreitou com receio.
Nada à vista, apenas uma grande campina, com árvores esparsas, em que não se via animais, a não ser uns passarinhos muito ao longe.
O ar tinha um leve cheiro adocicado, o que atribuiu à proximidade do buraco.
Resolveu emergir.
Uma vez fora procurou um trilho.
Não encontrou. Estranho, era como se o buraco tivesse sido escavado a partir do outro lado por inteiro, não havia trilhos, marcas de rodados de camiões, montes de terra escavada, nada.
Nem sinais de operários, embora pela claridade do dia fosse certamente hora de trabalho.
Para se certificar, e posto que as horas constantes do seu relógio tinham perdido a validade do outro lado do buraco, olhou para o céu de relance.
Não quis crer no que via, nem o autor destas linhas vos quer comunicar a sua primeira impressão, pois que com certeza estava errada.
De modo que olhou outra vez, e obteve a certeza. Bem, ainda não foi desta.
Todo o nosso saber é montado sobre conhecimentos adquiridos anteriormente, ao vermos uma lata de Coca-Cola presumimos que o seu conteúdo seja Coca-Cola, se efectivamente não for então só o admitiremos após uma análise detalhada, quiçá até com a ajuda de um laboratório.
Certeza mesmo foi à terceira, e mesmo assim só depois de verificar outros indícios, como por exemplo que as árvores tinham duas sombras, uma maior e uma menor.
O Céu tinha dois Sóis.
A esta atitude em que mergulhou chama-se perplexidade. Ficou sem ar.
A Terra é um satélite do Sol.
É o terceiro transporte público de passageiros a contar do Sol, depois de Mercúrio e Vénus.
Das duas uma, ou tinha deixado de ser ou não estava na Terra.
A sua primeira ideia foi retroceder, voltar para casa, para o T2 solitário que partilhava com um gato preto e um guarda-fatos embutido.
Pensando bem talvez seja melhor dar um passeio aqui primeiro, pensou, o gato desenrasca-se sem mim e o guarda-fatos se calhar também.
Experimentou o solo, era firme, atapetado de uma espécie de relva em que os seus passos não deixavam marca. Muito ecológico, pensou.
Achou piada a ter duas sombras enquanto caminhava na direcção de uma das árvores, a mais próxima.
Na realidade a que lhe parecia mais próxima não o era, à medida que se dirigia a ela havia outras que lhe apareciam agora mais perto, como se se deslocassem em direcção a si.
A certa altura estava rodeado de árvores que o olhavam com um ar curioso, embora os termos “olhar” e “curioso” lhe parecessem exagerados, mesmo atrevidos.
«Bom dia! Sabem dizer-me que lugar estranho é este em que me encontro?»
- As árvores olharam desta vez umas para as outras e pareceram conferenciar.
Uma delas, parecia um carvalho, mas mais gordo, disse-lhe:
«O meu caro Senhor não é deste mundo, pois não?»
- «Na realidade parece-me que não, sou natural do planeta Terra, e esta parte aqui está a querer parecer-me não ser exactamente conforme o que estou habituado.»
- «Também achamos estranho que um ser de duas pernas fale connosco, não estamos habituadas.»
A árvore acabou por explicar que o seu Mundo, para o qual não tinham um nome em especial, estava dividido em duas formas de vida básicas, as de uma perna, como as árvores ou a relva, e as de duas pernas, que se pareciam muito com ele mas eram mais feias.
Indeciso sobre se tratava de um cumprimento agradeceu na mesma.
As árvores viram que era um estrangeiro, que não nutria qualquer animosidade em relação a elas, que era um possível aliado, até mesmo um infiltrado no campo contrário e começaram a explicar-lhe os horrores a que o seu género estava sujeito:
As suas irmãs escravizadas, presas em hortas, em searas, em pomares, sujeitas a maus-tratos e a podas mutiladoras, feitas produzir filhos que os de duas pernas comiam sem qualquer respeito, as árvores de grande porte derrubadas, cortadas para lenha sem respeito pela sua idade, pela sua condição.
«No seu planeta não é assim, pois não?»
A bem dizer o buraco pavimentar urbano é algo inerente à existência citadina, uma espécie de arrumador a quem não é preciso dar uma moedinha.
Mas aquele era diferente.
Não que fosse distinto dos outros por qualquer sinal visível. Redondo e feio, escuro e marcado por umas fitinhas coloridas a avisar: «Está aqui um buraco!»
Era outra coisa. Como uma aura de mistério que emanasse do buraco, nada de físico, de visível, de palpável, antes um sabor a intuição, digamos uma cor fora do arco-íris.
Aproximou-se, espreitou, e o que viu confirmou que o apelo que o buraco lhe transmitira não fora em vão.
Embora fosse noite escura, tanto quanto o permite a iluminação da cidade, no fundo do buraco via-se o céu. Não um céu qualquer, nocturno, estrelado, de Lua e tudo mas um céu diurno, azul, como se o buraco atravessasse a Terra e mostrasse o que se passava nos antípodes a essa hora.
Olhou à volta e como não visse ninguém resolveu descer. Agarrou as bordas do buraco com as mãos, teve cuidado para não sujar o casaco e as calças e começou a descer por uma espécie de escada encostada à parede.
Desceu três degraus e verificou que por cima já não tinha a noite iluminada da cidade mas que sem dar por ela, talvez enquanto piscava os olhos para os humedecer, era agora o céu azul que estava por cima de si.
Mais uns degraus e verificou que não estava já a descer a escada mas a subi-la na direcção do dia.
Mais rápido do que pensava possível acabou por atingir a orla do buraco.
Espreitou com receio.
Nada à vista, apenas uma grande campina, com árvores esparsas, em que não se via animais, a não ser uns passarinhos muito ao longe.
O ar tinha um leve cheiro adocicado, o que atribuiu à proximidade do buraco.
Resolveu emergir.
Uma vez fora procurou um trilho.
Não encontrou. Estranho, era como se o buraco tivesse sido escavado a partir do outro lado por inteiro, não havia trilhos, marcas de rodados de camiões, montes de terra escavada, nada.
Nem sinais de operários, embora pela claridade do dia fosse certamente hora de trabalho.
Para se certificar, e posto que as horas constantes do seu relógio tinham perdido a validade do outro lado do buraco, olhou para o céu de relance.
Não quis crer no que via, nem o autor destas linhas vos quer comunicar a sua primeira impressão, pois que com certeza estava errada.
De modo que olhou outra vez, e obteve a certeza. Bem, ainda não foi desta.
Todo o nosso saber é montado sobre conhecimentos adquiridos anteriormente, ao vermos uma lata de Coca-Cola presumimos que o seu conteúdo seja Coca-Cola, se efectivamente não for então só o admitiremos após uma análise detalhada, quiçá até com a ajuda de um laboratório.
Certeza mesmo foi à terceira, e mesmo assim só depois de verificar outros indícios, como por exemplo que as árvores tinham duas sombras, uma maior e uma menor.
O Céu tinha dois Sóis.
A esta atitude em que mergulhou chama-se perplexidade. Ficou sem ar.
A Terra é um satélite do Sol.
É o terceiro transporte público de passageiros a contar do Sol, depois de Mercúrio e Vénus.
Das duas uma, ou tinha deixado de ser ou não estava na Terra.
A sua primeira ideia foi retroceder, voltar para casa, para o T2 solitário que partilhava com um gato preto e um guarda-fatos embutido.
Pensando bem talvez seja melhor dar um passeio aqui primeiro, pensou, o gato desenrasca-se sem mim e o guarda-fatos se calhar também.
Experimentou o solo, era firme, atapetado de uma espécie de relva em que os seus passos não deixavam marca. Muito ecológico, pensou.
Achou piada a ter duas sombras enquanto caminhava na direcção de uma das árvores, a mais próxima.
Na realidade a que lhe parecia mais próxima não o era, à medida que se dirigia a ela havia outras que lhe apareciam agora mais perto, como se se deslocassem em direcção a si.
A certa altura estava rodeado de árvores que o olhavam com um ar curioso, embora os termos “olhar” e “curioso” lhe parecessem exagerados, mesmo atrevidos.
«Bom dia! Sabem dizer-me que lugar estranho é este em que me encontro?»
- As árvores olharam desta vez umas para as outras e pareceram conferenciar.
Uma delas, parecia um carvalho, mas mais gordo, disse-lhe:
«O meu caro Senhor não é deste mundo, pois não?»
- «Na realidade parece-me que não, sou natural do planeta Terra, e esta parte aqui está a querer parecer-me não ser exactamente conforme o que estou habituado.»
- «Também achamos estranho que um ser de duas pernas fale connosco, não estamos habituadas.»
A árvore acabou por explicar que o seu Mundo, para o qual não tinham um nome em especial, estava dividido em duas formas de vida básicas, as de uma perna, como as árvores ou a relva, e as de duas pernas, que se pareciam muito com ele mas eram mais feias.
Indeciso sobre se tratava de um cumprimento agradeceu na mesma.
As árvores viram que era um estrangeiro, que não nutria qualquer animosidade em relação a elas, que era um possível aliado, até mesmo um infiltrado no campo contrário e começaram a explicar-lhe os horrores a que o seu género estava sujeito:
As suas irmãs escravizadas, presas em hortas, em searas, em pomares, sujeitas a maus-tratos e a podas mutiladoras, feitas produzir filhos que os de duas pernas comiam sem qualquer respeito, as árvores de grande porte derrubadas, cortadas para lenha sem respeito pela sua idade, pela sua condição.
«No seu planeta não é assim, pois não?»
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O buraco fora deixado na cidade há uns séculos por um antigo cabalista, daqueles que tinham sido obrigados a fugir para salvar a pele, ainda que provisoriamente, porque o salvamento da pele é sempre provisório. O mundo que ele encontrou foi o mundo do homem da cabala, porque existem tantos mundos quantos os seres que existem, existiram e existirão, e em cada ser tantos mundos quantos os segundos. O que é uma sorte é encontrar-se um buraco na rua e ter-se o privilégio de penetrar num desses outros mundos. A literatura também faz isso.
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