Saturday, November 12, 2005
O Buraco, a Rainha
Chegados à Cidade a notícia do luto foi passando de boca em boca e deixando todos consternados, deixando os semblantes mais jovens tristes e os mais velhos consternados, tanto que também a si, que vira o que acontecera à menina um pesar grave não lhe saía do coração.
Sempre com bons modos foi sendo levado até o que lhe pareceu ser o palácio real (ou a sede do governo, de qualquer modo a sede do poder).
Sem grandes preliminares, mais cedo do que esperava foi recebido em audiência pela que veio depois a saber ser a rainha do povo local.
Não ficou admirado ao verificar que toda a sua corte, as pessoas que a rodeavam eram mulheres. Naquele planeta o feminino era claramente o género dominante e o papel dos homens parecia ser bastante reduzido.
A própria linguagem, embora não a compreendesse, era manifestamente distinta quando se tratava de diálogos entre mulheres ou entre mulheres e homens ou entre estes. A linguagem usada pelas mulheres umas com as outras soava mais doce e não era acompanhada de expressões gestuais como a que observava nos outros contactos nos quais a expressão oral era abundantemente acompanhada de posturas do corpo e sinais feitos com as mãos.
Foi apresentado à rainha com o que restava dos pacotes de salmão fumado, os que tinham sido recuperados pelo mais corpulento dos homens, e que entretanto tinham feito a viagem expostos ao calor dos sóis desde o acampamento no deserto até ao palácio real.
Estava intrigado com a maneira como iria poder falar com a rainha até que viu a máquina de traduzir feita de latas de sardinha que sobrara da viagem anterior.
A tinta que cobria o metal das latas estava desbotada, como se tivesse estado guardada durante gerações num baú à espera da oportunidade de ser utilizada, embora tanto quanto se recordava tivesse sido construída no dia anterior.
No princípio a rainha não o abordou directamente mas através de uma conselheira.
Perguntou-lhe de onde vinha, como chegara ali e o que o trazia aquelas paragens.
Respondeu como pode, deixando em branco as explicações relativas ao buraco que constituía o seu meio de transporte porque na realidade não fazia a mínima ideia de como aquilo funcionava, só sabia que não tinha lógica nenhuma.
A rainha resolveu então intervir e perguntar-lhe directamente se tinha entendido bem que queria montar um restaurante especializado em peixe no seu planeta a ser financiado pelo Rei Olmo.
Que não era bem isso. Fora de facto abordado pelo Rei Olmo de quem trazia o apelo ao consumo de peixe em vez de vegetais pois que o consumo destes seus irmãos trazia o rei muito consternado. E ele próprio tivera a ideia de sugerir que os seres de duas pernas consumissem peixe em vez de vegetais de modo a pôr termo à guerra que tão brutalmente ainda naquele dia ceifara a vida de uma tão jovem criatura.
Claro que neste tipo de diálogos há sempre qualquer coisa que se perde, mais que não seja por razões culturais. Há sempre qualquer coisa que se perde num diálogo, mas então se as palavras forem mediadas por uma máquina construída com latas de sardinha usadas a probabilidade de se perder grande parte do sentido aumenta muito.
Sempre com bons modos foi sendo levado até o que lhe pareceu ser o palácio real (ou a sede do governo, de qualquer modo a sede do poder).
Sem grandes preliminares, mais cedo do que esperava foi recebido em audiência pela que veio depois a saber ser a rainha do povo local.
Não ficou admirado ao verificar que toda a sua corte, as pessoas que a rodeavam eram mulheres. Naquele planeta o feminino era claramente o género dominante e o papel dos homens parecia ser bastante reduzido.
A própria linguagem, embora não a compreendesse, era manifestamente distinta quando se tratava de diálogos entre mulheres ou entre mulheres e homens ou entre estes. A linguagem usada pelas mulheres umas com as outras soava mais doce e não era acompanhada de expressões gestuais como a que observava nos outros contactos nos quais a expressão oral era abundantemente acompanhada de posturas do corpo e sinais feitos com as mãos.
Foi apresentado à rainha com o que restava dos pacotes de salmão fumado, os que tinham sido recuperados pelo mais corpulento dos homens, e que entretanto tinham feito a viagem expostos ao calor dos sóis desde o acampamento no deserto até ao palácio real.
Estava intrigado com a maneira como iria poder falar com a rainha até que viu a máquina de traduzir feita de latas de sardinha que sobrara da viagem anterior.
A tinta que cobria o metal das latas estava desbotada, como se tivesse estado guardada durante gerações num baú à espera da oportunidade de ser utilizada, embora tanto quanto se recordava tivesse sido construída no dia anterior.
No princípio a rainha não o abordou directamente mas através de uma conselheira.
Perguntou-lhe de onde vinha, como chegara ali e o que o trazia aquelas paragens.
Respondeu como pode, deixando em branco as explicações relativas ao buraco que constituía o seu meio de transporte porque na realidade não fazia a mínima ideia de como aquilo funcionava, só sabia que não tinha lógica nenhuma.
A rainha resolveu então intervir e perguntar-lhe directamente se tinha entendido bem que queria montar um restaurante especializado em peixe no seu planeta a ser financiado pelo Rei Olmo.
Que não era bem isso. Fora de facto abordado pelo Rei Olmo de quem trazia o apelo ao consumo de peixe em vez de vegetais pois que o consumo destes seus irmãos trazia o rei muito consternado. E ele próprio tivera a ideia de sugerir que os seres de duas pernas consumissem peixe em vez de vegetais de modo a pôr termo à guerra que tão brutalmente ainda naquele dia ceifara a vida de uma tão jovem criatura.
Claro que neste tipo de diálogos há sempre qualquer coisa que se perde, mais que não seja por razões culturais. Há sempre qualquer coisa que se perde num diálogo, mas então se as palavras forem mediadas por uma máquina construída com latas de sardinha usadas a probabilidade de se perder grande parte do sentido aumenta muito.
Comments:
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E o que é perder o sentido se nem sequer sabemos qual é o sentido? Sabe-o aquele que recebe? Sabe-o aquele que emite? Quem é o dono do sentido? Tem o sentido quem sente?
Aí está. Perder o sentido, mas perdê-lo onde,na Rua, num centro comercial? Deixá-lo esquecido num autocarro ou no bengaleiro de um café?
Porque estar em sentido é o que nos salva de perder o pé na confusão.
O sentido é mais um sentido que um sentimento, mais que uma leve sensação, um ardor, uma comichão, um grito de revolta.
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Porque estar em sentido é o que nos salva de perder o pé na confusão.
O sentido é mais um sentido que um sentimento, mais que uma leve sensação, um ardor, uma comichão, um grito de revolta.
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