Tuesday, November 15, 2005

 

O Buraco, novamente as sardinhas mas agora noutro contexto

Pelos vistos o problema continuava.
Não conseguia deixar de pensar nos olhos implorantes das batatas ao ser-lhes arrancada a pele, ao serem devoradas, os gritos desesperados das azeitonas a serem esmagadas, a verem as suas irmãs esmagadas, ao serem despojadas do seu conteúdo líquido em borbotões de dor.

E os bagos de arroz estendendo-se no prato como lágrimas perladas.

Basta! Disse para si próprio. Tenho de pôr termo a este massacre de inocentes.

O problema é que começava a ficar com fome, com esta história das viagens entremundos já há uns dias que andava de dieta e começava a sentir-lhe os efeitos.
Mas como resolver o problema? Uma simples sanduíche tinha o seu conteúdo de cereais e não podia deixar de pensar em espigas decepadas, arrancadas ao caule mãe. E pior, não podia deixar de pensar na vingança do Rei Olmo.
Estava metido num buraco e tinha de se safar de alguma maneira.

A solução seria talvez a importação massiva de sardinhas para reprodução.

Mas isso implicava uma tecnologia de que não dispunha, tecnologia de construção de buracos apenas ao alcance de um cabalista. E para isso era preciso antes do mais saber se o que plantara os buracos que conhecia não fora o último e depois conseguir contactá-lo.

Comments:
Estes buracos psicológicos são ainda mais difíceis de resolver do que os buracos reais, se é que se pode chamar real a um buraco,m algo q
 
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algo que apenas existe em função do vazio.
 
Eu própria caí num buraco imprevisível feito da inexplicável e misteriosa repetição do mesmo comentário, que tive que apagar, incomodade pelo excesso.
 
Eu desconfio que isto já é fruto da acção do tal cabalista, mas não tenho provas.
 
O cabalista c'est moi.
Não vês, secretamente fui eu que criei o buraco, os buracos todos, os de repetição, os de carregar pela boca, os que levam ao agora e os que levam a sítios ainda mais estranhos?
Quem mais que eu se passeava de século em século, judeu errante castigado por culpas que são não ter culpas?
Quem mergulhou no buraco para encontrar o Graal de um destino grandioso de unir mundos?
Quem levou às costas os bacalhaus da esperança?
Quem se atrapalhou no afã de melhorar o mundo e criou um pesadelo?
O cabalista?
Cést moi.
 
"Bovary c'est moi": O mesmo dizia Flaubert em relação a Madame de Bovary... isto já é mania dos criadores.
 
Pois, mas quem criou a Bovary não fui eu,foi ele, eu só crio buracos e coisas afins.
 
Só agora reparo que no comentário anterior me referi aos «bacalhaus da esperança».
Acho que é uma imagem de um lirismo um pouco, como direi, salgado.
Deixá-lo. Esta história vai rapidamente degenerar num épico.
 
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