Thursday, November 17, 2005

 

O Buraco, a arma secreta

As cabras foram levadas através da terra de ninguém até às fronteiras do território dos uma perna. Aí foram pastoreadas para as plantas mais tenrinhas, mais inocentes.
Fizeram nelas grande mortandade.
Vigiadas dia e noite por guardas armadas de herbicida e desfolhante as cabras cresceram e multiplicaram-se, cada dia comiam mais plantas.
Os duas pernas avançavam pelo território inimigo sem que os uma perna pudessem opor uma verdadeira resistência.
E tentaram. Plantas houve que num assomo de coragem se envenenaram, fazendo morrer algumas cabras consigo. Mas os laboratórios das guardas logo tomaram as iniciativas necessárias à detecção precoce dos venenos e à criação de antídotos. Às silvas, plantas carnívoras e trepadeiras viciosas as cabras chamavam um figo.
À medida que os uma perna avançavam, precedido pelas cabras, iam aprisionando os uma perna em hortas, mantendo-as em reservas, aumentando a produção de alimentos de modo a permitir o seu próprio crescimento populacional.

A certa altura apenas restava um bosque em que o Rei Olmo se refugiara.
Contra os duas pernas e as cabras erguia-se agora o último reduto da resistência dos uma perna.
Uma carga magnífica em direcção à morte teria sido um destino digno de um rei.
Mas após a morte ainda restaria ao Rei Olmo e à sua comitiva a humilhação de ser pasto das cabras, e isso não podia admitir.

Só havia uma possibilidade: A morte pelo fogo.

Foram realizadas as cerimónias do incêndio.
As tochas foram ateadas pelas plantas ígneas.
Levadas à presença do Rei Olmo.

Em frente os pastores aguardavam com as cabras o nascer do Sol, alinhadas em frente de batalha.

O Rei Olmo levantou os ramos e deu o sinal.
Morro com a Pátria, gritou.
As plantas ígneas curvaram as tochas na direcção das plantas rasteiras, secas, dispostas em volta do Rei e das árvores principais.

O reino terminou numa apoteose de fogo que só descansou quando a última folha enegreceu de cansaço e se entregou.

Em frente as faces das guardas iluminadas pela aurora reflectiam nos olhos o fogo dos vencedores.
Enfim a paz chegara!

Comments:
Cada vez melhor, esta alegoria em estilo de epopeia ora prosaica, ora sagrada,
 
Pena que esteja a acabar, deu-me muito gozo.
 
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