Tuesday, November 22, 2005
No Princípio
No princípio era o Rio.
O Rio estava parado, não corria.
Nem sequer se pode dizer com propriedade que o Rio estava parado, por falta de referências.
Para se estar parado ou uma coisa diferente de parado é preciso que haja referências espaciais que permitam dizer: Está aqui, está ali, está nesse lugar.
E é preciso que se possa dizer: Agora está em tal sítio, antes estava noutro. São referências temporais.
Estas também faltavam porque no princípio só o rio era e estava, não havia portanto antes nem depois nem longe e perto.
Não havia comunicação porque não havia ninguém a quem dizer.
O Rio teve uma ideia e criou as margens.
Começou a correr entre elas.
Mas não tinha direcção, não havia ainda sido criado o nascer e o pôr-do-sol, nem sequer o Sol.
Faltava-lhe a noção de se deslocar porque não havendo Sol os dias não se sucedem, permanecem, não há Verão nem Inverno, não há calor e fresco, nada nasce e nada morre.
Pode haver onde mas não há para onde.
O Rio criou então o Sol e começou a fluir entre as margens de montante para jusante, enterneceu-se com o nascer do Sol de tal modo que resolveu criar sombras.
Plantou árvores ao longo das suas margens que lhe deram as sombras.
As coisas começaram a ter um antes e um depois. Um perfeito, um imperfeito e um mais que perfeito.
Por entre as margens do Rio corriam alcateias de lobos, enormes, olhos flamejantes que procuravam as raparigas incautas que tomavam banho nuas junto às margens.
E criou o vento, o que fez com que a superfície do Rio se quebrasse em pequenas rugas cruzadas que reflectiam cada uma a luz do Sol como se o fizessem num pano de xadrez de muitas cores.
E desses bocadinhos de Sol reflectido nasceram flores.
Amarelas, azuis, brancas, vermelhas.
Algumas juntaram-se aos pares e compuseram borboletas com que voaram para longe e foram pintar o céu de estrelas.
E o Rio criou as pontes que unem as margens, as casas que sobem brancas desde a água ao topo das colinas que o bordejam, os barcos que permitem que o vento fenda a água no seu caminho.
No meio da savana, junto da margem esquerda do Rio, uma criatura levantou-se e perguntou-se porque estava de pé.
Foi o começo das perguntas.
Também foi o a partir de das criaturas da savana.
Antes não havia, agora já havia.
De dia caçavam, de noite olhavam as estrelas. As noites eram solitárias e por isso o Rio criou a Lua, a que ilumina a noite, a que faz brilhar os olhos dos gatos. Passou a ser possível escrever Sonatas ao Luar.
Quando dormiam a serpente passava entre elas, lambia-lhes os corpos com as escamas do ventre, deixava um rasto vermelho que a manhã não apagava.
Os da savana viram as pontes, as casas, os barcos e ocuparam-nos.
Abriram grandes papagaios de papel e voaram para longe, para sítios que ainda não havia mas que passaram a existir quando lá chegaram. Pintaram esses sítios de cores de gratidão ao Rio e ao Sol, tiveram filhos e pintaram os filhos da cor do arco-íris, deram-lhe moinhos de vento e deixaram-nos correr à vontade com eles.
Banhavam-se no Rio, envelheciam e morriam com um ar feliz, com um moinho de papel na mão a rodopiar movido pela brisa.
O Rio criou os anjos. Deixou-os vaguear por entre os da savana que agora eram os da cidade. Disse-lhes que fossem e que tomassem conta deles, que lhes ensinassem a ouvir música, a atravessar as ruas, a estudar geometria, a andar de bicicleta e a filosofar sobre a origem do Universo.
Entre o bater das asas dos anjos o Rio ouvia o riso feliz dos da cidade. O rio ficava contente.
Criou aquele mundo e criou outros, fantasmas daquele, tão fantasmas daquele como aquele era fantasma deles.
Numa noite de Verão mais curta que as outras esses mundos cruzavam-se, os das cidades de um e do outro lado encontravam-se e como nunca tinham visto criaturas mais belas antes na vida trocavam de mundo por essa noite. De manhã tudo voltava ao normal sem memórias do que acontecera a não ser um ligeiro cansaço com traço a saudade e uma marca vermelha muito pequenina escondida por detrás da orelha direita.
Foi o chacal. Escondeu-se entre os canaviais das margens e planeou a vingança. Vingança de quê?
Porquê, o ódio precisa de outra razão de ser para além do amor a ele próprio?
Odiava o Rio, os da cidade, os lobos que trotavam livres junto das margens, as raparigas nuas, as serpentes, os papagaios de papel. Odiava de um ódio puro e sem mancha, só feito de rancor.
Entristecia-o ver o Sol e a Lua. Invejava a sua felicidade.
A Lua era demasiado feminina para que pudesse tocar-lhe, cobiçava-lhe as suas formas redondas mas temia-a por causa do poder que se ocultava naquele ventre macio.
O Sol.
Teria de ser o Sol a desaparecer, a deixar de fulgurar para que o brilho do chacal ocultasse todas as maravilhas do mundo.
Para que os feitos do Rio lhe fossem atribuídos a ele.
Derrubou as árvores das margens e construiu uma escada tosca, à sua imagem, subiu ao céu, arrancou o Sol do seu pedestal e guardou-o num sarcófago que levava consigo para o efeito.
Tornou-se noite. O tempo parou, o Rio já não sabia fluir, os da cidade esconderam-se com medo.
Levou o Sol para o seu laboratório de carrasco e cortou-o em pedaços muito pequenos.
Espalhou os pedaços nos caminhos de modo a que os passarinhos os vissem luzir, pensassem que eram migalhas de pão e os comessem.
Os da cidade quedavam-se como mortos, transidos de medo, os anjos sem eles nada podiam fazer, o Rio parara de correr, as estrelas moravam lá longe, a serpente, envergonhada, fugira.
Só a Lua podia valer ao Sol.
A Lua escura, que o chacal não produzia luz que se visse, que desse alvura à Lua, que a enchesse, foi a lua escura que falou com os passarinhos, que lhes pediu que lhe devolvessem o seu amado.
E eles grão a grão foram depositá-lo no seu lugar no céu.
E pouco a pouco recomeçou a brilhar.
Mostrou o seu poder e a sua glória, encheu a Lua, fê-la brilhar com ele, derramou a sua bênção sobre o mundo do Rio, devolveu o tempo, o que faz andar os dias e as noites e as espigas de trigo, acordou os da cidade e fê-los sentir vergonha do seu medo.
Chamou os anjos, a serpente, os lobos e as raparigas incautas que tomam banho nuas no Rio, disse-lhes que retomassem a vida e que prendessem o chacal.
Estendeu as suas asas sobre o mundo, encolheu-as de novo e o Rio adormeceu em paz.
O Rio estava parado, não corria.
Nem sequer se pode dizer com propriedade que o Rio estava parado, por falta de referências.
Para se estar parado ou uma coisa diferente de parado é preciso que haja referências espaciais que permitam dizer: Está aqui, está ali, está nesse lugar.
E é preciso que se possa dizer: Agora está em tal sítio, antes estava noutro. São referências temporais.
Estas também faltavam porque no princípio só o rio era e estava, não havia portanto antes nem depois nem longe e perto.
Não havia comunicação porque não havia ninguém a quem dizer.
O Rio teve uma ideia e criou as margens.
Começou a correr entre elas.
Mas não tinha direcção, não havia ainda sido criado o nascer e o pôr-do-sol, nem sequer o Sol.
Faltava-lhe a noção de se deslocar porque não havendo Sol os dias não se sucedem, permanecem, não há Verão nem Inverno, não há calor e fresco, nada nasce e nada morre.
Pode haver onde mas não há para onde.
O Rio criou então o Sol e começou a fluir entre as margens de montante para jusante, enterneceu-se com o nascer do Sol de tal modo que resolveu criar sombras.
Plantou árvores ao longo das suas margens que lhe deram as sombras.
As coisas começaram a ter um antes e um depois. Um perfeito, um imperfeito e um mais que perfeito.
Por entre as margens do Rio corriam alcateias de lobos, enormes, olhos flamejantes que procuravam as raparigas incautas que tomavam banho nuas junto às margens.
E criou o vento, o que fez com que a superfície do Rio se quebrasse em pequenas rugas cruzadas que reflectiam cada uma a luz do Sol como se o fizessem num pano de xadrez de muitas cores.
E desses bocadinhos de Sol reflectido nasceram flores.
Amarelas, azuis, brancas, vermelhas.
Algumas juntaram-se aos pares e compuseram borboletas com que voaram para longe e foram pintar o céu de estrelas.
E o Rio criou as pontes que unem as margens, as casas que sobem brancas desde a água ao topo das colinas que o bordejam, os barcos que permitem que o vento fenda a água no seu caminho.
No meio da savana, junto da margem esquerda do Rio, uma criatura levantou-se e perguntou-se porque estava de pé.
Foi o começo das perguntas.
Também foi o a partir de das criaturas da savana.
Antes não havia, agora já havia.
De dia caçavam, de noite olhavam as estrelas. As noites eram solitárias e por isso o Rio criou a Lua, a que ilumina a noite, a que faz brilhar os olhos dos gatos. Passou a ser possível escrever Sonatas ao Luar.
Quando dormiam a serpente passava entre elas, lambia-lhes os corpos com as escamas do ventre, deixava um rasto vermelho que a manhã não apagava.
Os da savana viram as pontes, as casas, os barcos e ocuparam-nos.
Abriram grandes papagaios de papel e voaram para longe, para sítios que ainda não havia mas que passaram a existir quando lá chegaram. Pintaram esses sítios de cores de gratidão ao Rio e ao Sol, tiveram filhos e pintaram os filhos da cor do arco-íris, deram-lhe moinhos de vento e deixaram-nos correr à vontade com eles.
Banhavam-se no Rio, envelheciam e morriam com um ar feliz, com um moinho de papel na mão a rodopiar movido pela brisa.
O Rio criou os anjos. Deixou-os vaguear por entre os da savana que agora eram os da cidade. Disse-lhes que fossem e que tomassem conta deles, que lhes ensinassem a ouvir música, a atravessar as ruas, a estudar geometria, a andar de bicicleta e a filosofar sobre a origem do Universo.
Entre o bater das asas dos anjos o Rio ouvia o riso feliz dos da cidade. O rio ficava contente.
Criou aquele mundo e criou outros, fantasmas daquele, tão fantasmas daquele como aquele era fantasma deles.
Numa noite de Verão mais curta que as outras esses mundos cruzavam-se, os das cidades de um e do outro lado encontravam-se e como nunca tinham visto criaturas mais belas antes na vida trocavam de mundo por essa noite. De manhã tudo voltava ao normal sem memórias do que acontecera a não ser um ligeiro cansaço com traço a saudade e uma marca vermelha muito pequenina escondida por detrás da orelha direita.
Foi o chacal. Escondeu-se entre os canaviais das margens e planeou a vingança. Vingança de quê?
Porquê, o ódio precisa de outra razão de ser para além do amor a ele próprio?
Odiava o Rio, os da cidade, os lobos que trotavam livres junto das margens, as raparigas nuas, as serpentes, os papagaios de papel. Odiava de um ódio puro e sem mancha, só feito de rancor.
Entristecia-o ver o Sol e a Lua. Invejava a sua felicidade.
A Lua era demasiado feminina para que pudesse tocar-lhe, cobiçava-lhe as suas formas redondas mas temia-a por causa do poder que se ocultava naquele ventre macio.
O Sol.
Teria de ser o Sol a desaparecer, a deixar de fulgurar para que o brilho do chacal ocultasse todas as maravilhas do mundo.
Para que os feitos do Rio lhe fossem atribuídos a ele.
Derrubou as árvores das margens e construiu uma escada tosca, à sua imagem, subiu ao céu, arrancou o Sol do seu pedestal e guardou-o num sarcófago que levava consigo para o efeito.
Tornou-se noite. O tempo parou, o Rio já não sabia fluir, os da cidade esconderam-se com medo.
Levou o Sol para o seu laboratório de carrasco e cortou-o em pedaços muito pequenos.
Espalhou os pedaços nos caminhos de modo a que os passarinhos os vissem luzir, pensassem que eram migalhas de pão e os comessem.
Os da cidade quedavam-se como mortos, transidos de medo, os anjos sem eles nada podiam fazer, o Rio parara de correr, as estrelas moravam lá longe, a serpente, envergonhada, fugira.
Só a Lua podia valer ao Sol.
A Lua escura, que o chacal não produzia luz que se visse, que desse alvura à Lua, que a enchesse, foi a lua escura que falou com os passarinhos, que lhes pediu que lhe devolvessem o seu amado.
E eles grão a grão foram depositá-lo no seu lugar no céu.
E pouco a pouco recomeçou a brilhar.
Mostrou o seu poder e a sua glória, encheu a Lua, fê-la brilhar com ele, derramou a sua bênção sobre o mundo do Rio, devolveu o tempo, o que faz andar os dias e as noites e as espigas de trigo, acordou os da cidade e fê-los sentir vergonha do seu medo.
Chamou os anjos, a serpente, os lobos e as raparigas incautas que tomam banho nuas no Rio, disse-lhes que retomassem a vida e que prendessem o chacal.
Estendeu as suas asas sobre o mundo, encolheu-as de novo e o Rio adormeceu em paz.
Comments:
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Já conhecia, mas não cansa ler um tão belo texto, e é reconfortante este saber dos poetas sobre o princípio das coisas.
Fraterno abraço
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Fraterno abraço
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