Friday, November 25, 2005
Construtor de momentos, solidão e reencontro
Às vezes a alma vagueia, passeia dentro do corpo como se este estivesse vazio, como se fosse só uma carruagem daquelas do último metro.
E o portador dá por isso.
Chama-se a esse estado solidão e em casos extremos consegue afectar o alvo da sua distinção mesmo no meio da assistência de um jogo de futebol, no intervalo do cinema a que se vai só com a companhia de um saco de pipocas e de uma Coca-Cola.
É nessas alturas em que até o par de raparigas que foi ver o filme e cochicha talvez disparates talvez pensamentos profundos capazes de mudar o rumo da filosofia ocidental uma no ouvido da outra se apresenta como um grupo de pessoas felizes e até interessantes.
Nunca se está inteiramente só. Estamos sempre connosco e connosco estão as nossas memórias, as pessoas que em tempo nos fizeram companhia e não nos deixaram nessa altura cair em solidão.
Uma sombra de curva de anca, um sorriso claro assaltam de mansinho os pensamentos e tornam-nos penosos. Assombram-nos.
Era um daquelas alturas.
As sombras do passado ainda o assustavam.
Fora usado e deitado fora.
Posto no vidrão do esquecimento.
O problema era que o vidrão devia estar avariado porque não conseguia esquecê-la.
Os anos do casamento tinham sido uma sucessão de discussões sem sentido provocadas por uma mulher que o triturara com ossos e tudo, que tinha o gosto sádico de o ver sofrer, que se sentira amada e por isso o desprezara por completo.
Estava na altura de passar à fase seguinte.
A fase seguinte vem sem se dar por ela. Envolve o sujeito sem que este faça um esforço consciente nesse sentido.
Está aqui e logo está ali.
Assim.
Chamo-me Manuel Ribeiro e acabo de chegar.
Vim de longe, nunca aqui estive antes.
Não mudei de vida, só mudei de lugar.
O cinema sozinho, a Coca-Cola e as pipocas, jantar sozinho como combinei comigo mesmo. Admirar a juventude das miúdas da fila da frente no cinema.
Regressar a casa, dormir com os fantasmas, ser acordado por estes.
Trabalhar é sempre uma boa terapia para estados de alma incompleta.
Mas de que servem os longos períodos de trabalho, esticados para além do razoável, de que serve tingir os sons da noite de Coltrane se não temos a quem mostrar as cores?
É como ir ao aeroporto ver os aviões partir e ficar no solo.
Solo.
La solitude.
Há no entanto pessoas que logo da primeira vez que as vemos temos a sensação de as querer ver muito mais.
Não sei, uma forma de colocar o nariz, qualquer coisa na voz, na posição das mãos?
Podemos andar anos sem ver uma dessas pessoas e de repente lá está.
Onde aliás já estava, nós é que não sabíamos.
Foi ao descer as escadas que a coisa começou.
Ela vinha a subir no sentido contrário.
Desceu dois degraus, cruzaram-se, fingiu que não dava por ela, que por sua vez não deu por si de certeza, parou, virou-se para trás e em vez de dar de frente com as ancas foi antes com os olhos dela que o fitavam a si.
Coraram ambos e viraram-se para a frente um a descer outro a subir umas escadas que subitamente tinham deixado de fazer sentido.
E o portador dá por isso.
Chama-se a esse estado solidão e em casos extremos consegue afectar o alvo da sua distinção mesmo no meio da assistência de um jogo de futebol, no intervalo do cinema a que se vai só com a companhia de um saco de pipocas e de uma Coca-Cola.
É nessas alturas em que até o par de raparigas que foi ver o filme e cochicha talvez disparates talvez pensamentos profundos capazes de mudar o rumo da filosofia ocidental uma no ouvido da outra se apresenta como um grupo de pessoas felizes e até interessantes.
Nunca se está inteiramente só. Estamos sempre connosco e connosco estão as nossas memórias, as pessoas que em tempo nos fizeram companhia e não nos deixaram nessa altura cair em solidão.
Uma sombra de curva de anca, um sorriso claro assaltam de mansinho os pensamentos e tornam-nos penosos. Assombram-nos.
Era um daquelas alturas.
As sombras do passado ainda o assustavam.
Fora usado e deitado fora.
Posto no vidrão do esquecimento.
O problema era que o vidrão devia estar avariado porque não conseguia esquecê-la.
Os anos do casamento tinham sido uma sucessão de discussões sem sentido provocadas por uma mulher que o triturara com ossos e tudo, que tinha o gosto sádico de o ver sofrer, que se sentira amada e por isso o desprezara por completo.
Estava na altura de passar à fase seguinte.
A fase seguinte vem sem se dar por ela. Envolve o sujeito sem que este faça um esforço consciente nesse sentido.
Está aqui e logo está ali.
Assim.
Chamo-me Manuel Ribeiro e acabo de chegar.
Vim de longe, nunca aqui estive antes.
Não mudei de vida, só mudei de lugar.
O cinema sozinho, a Coca-Cola e as pipocas, jantar sozinho como combinei comigo mesmo. Admirar a juventude das miúdas da fila da frente no cinema.
Regressar a casa, dormir com os fantasmas, ser acordado por estes.
Trabalhar é sempre uma boa terapia para estados de alma incompleta.
Mas de que servem os longos períodos de trabalho, esticados para além do razoável, de que serve tingir os sons da noite de Coltrane se não temos a quem mostrar as cores?
É como ir ao aeroporto ver os aviões partir e ficar no solo.
Solo.
La solitude.
Há no entanto pessoas que logo da primeira vez que as vemos temos a sensação de as querer ver muito mais.
Não sei, uma forma de colocar o nariz, qualquer coisa na voz, na posição das mãos?
Podemos andar anos sem ver uma dessas pessoas e de repente lá está.
Onde aliás já estava, nós é que não sabíamos.
Foi ao descer as escadas que a coisa começou.
Ela vinha a subir no sentido contrário.
Desceu dois degraus, cruzaram-se, fingiu que não dava por ela, que por sua vez não deu por si de certeza, parou, virou-se para trás e em vez de dar de frente com as ancas foi antes com os olhos dela que o fitavam a si.
Coraram ambos e viraram-se para a frente um a descer outro a subir umas escadas que subitamente tinham deixado de fazer sentido.
