Sunday, November 06, 2005

 

Adriano e o Faraó

Capítulo VIII.
Episódio II
Epílogo


Só que os do Clube estavam renitentes. Que lhe lixavam a vida, que descontavam, que não renovavam, que ele era um garoto e um palhaço que ia a correr atrás das gajas…

Antes que a coisa azedasse foi a Clarinha que me pediu que interviesse.

Que o Tó não podia perder o emprego. Mas que vida é que eu lhes reservava? Tinha sentido um autor ser tão malévolo assim a esse ponto? Dizia-me com ar irado: - São ciúmes? – E de seguida com ar meigo – Mas eu tenho sido tão boa para si…
- Além disso o Senhor é que é o responsável por isto, se não tem posto a outra a escrever a carta anónima já o Tó não tinha vindo desarvorado por aí abaixo à minha procura. E ainda por cima é meu cúmplice, olhe se o Tó vem a saber, que cara era a sua? – Ameaçava ela.

Enrascado pela situação em que me metera prometi ao Tó que iria com ele ter com a Direcção do Clube esclarecer a situação. Afinal eu é que era o autor do imbróglio e eu é que tinha de o desatar.

O Tó fez as malas a contragosto, combinámos apanhar o Metro para a Gare do Oriente na direcção do próximo comboio para Aveiro, dei-lhes três quartos de hora para a despedida enquanto lia o jornal e depois fomos os três até ao Metro.

Quer dizer, neste momento já estou preso nesta história como personagem também. Desceram as escadas e eu com eles. Esperaram no cais e eu com eles. Veio o ruído de fundo e o comboio de seguida, aproximou-se do cais, do sítio em que a Clarinha e o Tó esperavam e eu com eles.
Foi nessa altura que senti dois pares de mãos a empurrar-me as costas, desequilibrando-me para a linha.

Cuidado, a poesia está no ar.
Em cada curva da estrada um sinal, possibilidade de queda de poetas. E a gente conduz suavemente serra acima serra abaixo, com aquelas paisagens de asfalto cortadas com indicações de percentagens de inclinações, como num IP 4 sem rumo, e surge um poeta no meio da estrada.

Uma travagem sôfrega. Um cinto que nos prende à vida e que nos salva da poesia.

Socorro, a poesia está no arr...gh!

Comments:
E tem sido por aí tão atropelada, a poesia! Isto de viver num pretenso "país de poetas" tem um peso muito alto...
 
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