Thursday, November 03, 2005
Adriano e o Faraó
Capítulo VII.
Episódio I
Ignorante da fúria do comboio a Clarinha passeia o seu dia-a-dia com inocência.
Aulas, telenovela, o triste jantar em casa da tia, o encontro furtivo com o Pato Donald.
Às vezes a vida é como a linha do 28 para a Graça, cheia de curvas mas vai dar sempre ao mesmo. E acima de tudo o Pato já a começava a cansar.
Aquele vício que se lhe entranhara começava finalmente a aplainar. Como um rio de torrentes e rápidos que encontra o seu estuário e já não se sabe bem se é a água doce do rio ou a salgada da maré que beija as margens.
Até porque o rapaz estava longe de ser um génio, ou de apresentar características de ter algum futuro de jeito pela frente a não ser o de casar com a colega.
A Clarinha começava a chegar aquela parte da relação em que cada momento junto dele era uma forma de adiar um adeus pouco sentido.
Ainda assim daquela vez, logo daquela vez, o Zé Manel teve artes de a convencer a esgueirar-se com ele para o quarto em casa da tia em que a Clarinha costumava dormir junto da fotografia do Tó.
E o Tó a chegar, furioso, e a Clarinha, linda e inocente arfava nos braços do Zé Manel, ignorante da iminente chegada do Tó, os destinos de todos corriam a juntar-se num nó de desastre.
E como é que vou conseguir evitar uma tragédia, penso eu, agora deveras preocupado com a saúde da Clarinha e do Tó (com a do Pato Donald nem por isso, salta à vista que não gosto dele)?
Toca o Tó à campainha da porta, a tia levanta-se da cama, assustada, quem será a esta hora pergunta de retórica para os cordões do roupão que insiste em atar ao corpo enquanto se dirige com passos firmes de medo ao telefone interno, quem é?
Que é o Tó, passou por Lisboa sem contar e queria ver a Clarinha sei que é tarde mas – faz favor, eu acho que ela já está deitada a descansar, ó Clara, está aqui o Tó!
Abre a porta e o Tó começa a galgar os três andares que o separam da dúvida, da traição, da felicidade, mal sabe ele enquanto sobe as escadas com a agilidade que os treinos da bola dão.
Ai! Mal dá tempo, coitada da moça, de despejar o Zé Manel pela escada de incêndio de calças na mão, abotoas-te lá em baixo, não me estragues a vida, vai-te embora, depois ligo-te, e ele com ar de parvo, como se se lhe tivesse interrompido alguma coisa na vida, como se a vida toda não fosse feita de interrupções. Nasce uma pessoa, morre, interrompe-se a vida, vai-se na estrada, uma avaria, interrompe-se a viagem, e agora esta, apareceu o outro gajo lá de Aveiro, enquanto vai descendo pelas escadas de incêndio, ganha a rua, veste-se e põe-se a mexer com a celeridade que este tipo de ocasião impõe.
Episódio I
Ignorante da fúria do comboio a Clarinha passeia o seu dia-a-dia com inocência.
Aulas, telenovela, o triste jantar em casa da tia, o encontro furtivo com o Pato Donald.
Às vezes a vida é como a linha do 28 para a Graça, cheia de curvas mas vai dar sempre ao mesmo. E acima de tudo o Pato já a começava a cansar.
Aquele vício que se lhe entranhara começava finalmente a aplainar. Como um rio de torrentes e rápidos que encontra o seu estuário e já não se sabe bem se é a água doce do rio ou a salgada da maré que beija as margens.
Até porque o rapaz estava longe de ser um génio, ou de apresentar características de ter algum futuro de jeito pela frente a não ser o de casar com a colega.
A Clarinha começava a chegar aquela parte da relação em que cada momento junto dele era uma forma de adiar um adeus pouco sentido.
Ainda assim daquela vez, logo daquela vez, o Zé Manel teve artes de a convencer a esgueirar-se com ele para o quarto em casa da tia em que a Clarinha costumava dormir junto da fotografia do Tó.
E o Tó a chegar, furioso, e a Clarinha, linda e inocente arfava nos braços do Zé Manel, ignorante da iminente chegada do Tó, os destinos de todos corriam a juntar-se num nó de desastre.
E como é que vou conseguir evitar uma tragédia, penso eu, agora deveras preocupado com a saúde da Clarinha e do Tó (com a do Pato Donald nem por isso, salta à vista que não gosto dele)?
Toca o Tó à campainha da porta, a tia levanta-se da cama, assustada, quem será a esta hora pergunta de retórica para os cordões do roupão que insiste em atar ao corpo enquanto se dirige com passos firmes de medo ao telefone interno, quem é?
Que é o Tó, passou por Lisboa sem contar e queria ver a Clarinha sei que é tarde mas – faz favor, eu acho que ela já está deitada a descansar, ó Clara, está aqui o Tó!
Abre a porta e o Tó começa a galgar os três andares que o separam da dúvida, da traição, da felicidade, mal sabe ele enquanto sobe as escadas com a agilidade que os treinos da bola dão.
Ai! Mal dá tempo, coitada da moça, de despejar o Zé Manel pela escada de incêndio de calças na mão, abotoas-te lá em baixo, não me estragues a vida, vai-te embora, depois ligo-te, e ele com ar de parvo, como se se lhe tivesse interrompido alguma coisa na vida, como se a vida toda não fosse feita de interrupções. Nasce uma pessoa, morre, interrompe-se a vida, vai-se na estrada, uma avaria, interrompe-se a viagem, e agora esta, apareceu o outro gajo lá de Aveiro, enquanto vai descendo pelas escadas de incêndio, ganha a rua, veste-se e põe-se a mexer com a celeridade que este tipo de ocasião impõe.
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A vida é, ela mesma, na maior parte dos casos, uma interrupção. Um dia descobre-se que não há interrupções na vida nem em nada. É quando se descobre a respiração contínua. O truque é não suspender a respiração, mesmo que seja preciso abotoar as calças, segurar as calças ou vestir as calças, não tem importância nenhuma...
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