Tuesday, October 04, 2005

 

Um pouco de Rio

Nessa manhã o Rio acordou por níveis.
Normalmente acordava à tona de água mas desta vez os sonhos conduziram-no a acordar em patamares.
Os barcos, é claro, ressentiam-se.
Havia uns que se tinham deitado juntos, lado a lado e agora espreguiçavam-se para um lado e para outro a admirar as ausências dos companheiros da noite passada até os encontrarem em vez de ao lado em cima ou em baixo, conforme o patamar em que tinham sido colocados.
O nível da água deixava assim de ser uma expressão única, havia barcos no nível 4, no nível 5, e havia acima de tudo que ter muito cuidado na navegação por causa dos degraus.
Não deixando de ser perigosa a situação apresentava o seu encanto na desconformidade com o destino. Pois não é verdade que é o destino da água é o plano?
Uma torre, por exemplo, pode conceber-se não como dirigida ao céu mas como dirigida ao interior da terra, não perde por isso o seu carácter vertical, passa a ser o acesso por elevador ao parque -2.
Mas um rio em que a água deixa de se preocupar em acamar-se no mesmo nível é algo de surpreendente. Assim como se o tempo começasse a andar num sentido para algumas pessoas ou nalguns lugares e no outro sentido para outros. Ou até sem sentido ou sem constância.
Imagine-se uma hora a durar mais ou menos conforme estivéssemos na Patagónia ou na Finlândia, ou o regresso à idade média na Suíça.
Felizmente por enquanto apenas a água do rio se revoltou contra o destino e decidiu pôr os barcos a vogar uns por cima dos outros.
No próximo capítulo analisaremos a composição química da água do Rio no sentido de determinar se existe algum factor patogénico que tenha motivado a desnivelação.


E a surpresa dos peixes ao saltar fora de água e ficar dentro de água na mesma, e a dos banhistas a mergulhar e ficar à tona, dar duas braçadas e ver a superfície três metros acima.

Procurou-se a explicação numa descarga de iogurte de morango que tivesse sido inadvertidamente vertida num afluente mal-encarado mas não se demonstrou que o iogurte de morango tivesse este efeito e não se encontrou evidências de qualquer descarga ou de qualquer composição anormal da água do Rio.

A questão não era portanto, química.


Talvez o Rio tivesse ganho consciência e se abalançasse a ter o seu próprio querer.
Como uma criança a gatinhar os primeiros movimentos e as primeiras descobertas do que fica por detrás da porta o Rio procura desafiar o equilíbrio.
Desequilibrar-se, transmutar-se, fazer da água vinho, do chumbo ouro, do imutável a mutação permanente.
Quando nada permanece estável o degrau na água não nos deve surpreender.
No entanto surpreende de tão habituados que estamos a pensar que ficamos sempre na mesma.

Essa a primeira lição do Rio: Manter a mente em desequilíbrio como condição de manutenção do equilíbrio mental.
Mantendo o movimento o ciclista não cai.


Comments:
Afinal, estar ao pé do rio não é "estar só ao pé dele". É aprender com ele.
 
Estar ao pé do Rio é aprender com o Rio.
Estar ao pé do Rio é das coisas boas que acontecem poucas vezes na vida.
Agradeço ao Rio.
 
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