Tuesday, October 18, 2005

 

A serpente, a boneca,o relógio de sol

Era uma vez uma menina que tinha dois brinquedos, uma boneca e uma serpente...

e não sabia de qual das duas gostava mais, se da boneca se da serpente...

sendo certo que para tornar a coisa menos simples a boneca e a serpente não revelavam um grande afecto entre ambas...

quisera ver o mundo como o vêem os olhos vivos da serpente, deixar-me encantar por eles, voar nas minhas asas de sonho e correr as escalas do tempo...

ou estática mirar a água que corre nos olhos parados da boneca, a sucessão dos dias e das noites, das nuvens de alegria e de medo, nos olhos parados da boneca, pedir-lhos emprestados de modo que ao deitar-me os olhos ficassem fechados. Para sempre.

serpentear com as asas do tempo entre os corpos quentes do conhecimento, mirar o meu filho que já foi meu avô

saber estar entre o tempo, a cair suavemente, segundo a segundo, entre todos os tempos, deslizar subtil como uma referência nunca feita apenas adivinhada,

ou parar, deixar que o tempo me lamba de carícias as mãos como se Argos me reconhecesse finalmente e pudesse morrer. Descansar enquanto os meus olhos de vidro se fixam no ausente que é uma espécie de presente sem tempo

a serpente lembra-se ainda do tempo em que não havia tempo.
Lembra-se porque ela já lá estava.
Antes do tempo.
E a serpente tem memória.
E lembra-se de ter dado uma maçã à boneca e de a boneca a ter comido com os olhos ávidos, vítreos,

e de a boneca me ter dado uma fatia da maçã (ou foi a ti? não me consigo recordar) e de as coisas terem começado nesse instante, não antes nem depois, porque não havia antes e depois

mas a maçã agitava-se vermelha entre os dois, a serpente e a boneca, ao compasso do tempo recém criado, que gatinhava ainda, lento e saboroso,

levanto a boneca, os olhos abrem-se-lhe, vejo a serpente reflectida, as cores, as escamas, o sorriso, as plumas vistosas, a boneca pára, escuta com os olhos redondos a música dos desenhos que a serpente faz na areia, a música esculpida pelo vento no seu corpo esguio

os desenhos que a serpente traça na areia evocam uma ampulheta em que mergulhados na parte de cima não podemos senão ser esvaídos para a parte inferior, como lágrimas a cair numa clepsidra, lágrimas como aquelas que os olhos da boneca não vertem

lágrimas em forma de serpente de coral, lágrimas que evocam momentos de beleza tão grande...lágrimas encadeadas como num colar de poemas que se usa em dias solenes de festa, no meio das serpentes de papel, coloridas, garridas enquanto o vento do dia seguinte não as varre para o esquecimento

Comments:
... E a serpente que já foi minha avó, transforma-se na boneca com asas, que já foi o contador de histórias, e o contador de histórias que já foi a serpente, transforma-se ne maçã. E todos são já estrelas. Mas são tão lentos no pensar, que ainda não sabem. Pensam ainda que são maçã, boneca, serpente, contador de histórias.
 
As bonecas têm asas para poderem voar até às estrelas, aquelas estrelas que moram nos olhos das serpentes, as que te fitam nas noites escuras como se quisessem morar em ti.
O encantador de histórias deixa-se contar de mansinho com medo de perturbar o seu próprio sono e despertar a serpente.
 
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