Thursday, October 06, 2005
Porque todos os corpos são percorridos por canais
| Porque todos os corpos são percorridos por canais, secções tubulares, por onde flúi a energia. Assim os corpos macios assim as cidades que são corpos duros mas não inflexíveis. Nascem, morrem, crescem, enriquecem e empobrecem. Assim os edifícios. Recordo aqui a obra de Will Eisner "The Building" sobre a alma dos edifícios urbanos, seus amores,suas dores, seus sons e crimes. E não penses que o buraco urbano é um privilégio alfacinha. Em qualquer cidade de província lá os encontras: Os catterpillars a barrar as ruas com um ar marcial, como num golpe de estado, o pó, os trabalhadores com uma raquete de ténis semaforizada em tons de verde e encarnado como se fosse um Sporting-Benfica transitário, o pó outra vez, os sinais a dizer "desvio" (só que na província diz-se desvio e não desviu como em português padrão) os canos de água ou de electricidade ou de gás ou de outra forma de energia qualquer a espreitar, encolhidos a um canto à espera de vez e a avisar o transeunte: Vês, não estás aí a apanhar seca (e pó) para nada, estás à espera de que eu seja colocado, que vá, quem sabe, levar a TV cabo a tua casa, ou o gás natural a casa da tua mãe, ou uma aguinha mais fresquinha a casa daquelas meninas que a tua patroa finge que não sabe que tu encontras lá no bar de alternas (ah, a província, as tias de Braga, a decência...). E as obras de remodelação cá dentro. Quando pensamos que estamos a ficar cinzentos e de repente abrimos uma palete de emoções vivas como uma caixa de lápis de cor Caran d'Ache. E as dores de parto das ideias novas e das sensações novas. São os tubos a deixar passar a corrente da energia. |