Tuesday, October 04, 2005
O Eclipse
| Se não tivessem morto os magos teriam sabido antes. Mas queimaram-nos em fogueiras grandes em que o povo aplaudia embriagado os gritos de dor. E com eles queimaram-lhes os livros, o que foi um segundo erro. Cegaram os que sabiam ler nas estrelas, tiraram-lhes a luz. Disseram que não a mereciam. E o tom laranja das fogueiras, o crepitar, os gritos, o vinho, o medo, o sexo acicatado pelo cheiro do sangue a correr rápido atrás de cada esquina. Foi assim que mataram os magos que previam os eclipses. O Sol abraçou a Lua no seu bailado celeste. Abriu as suas asas e cobriu a Terra de trevas. Um sussurro de alerta correu as vozes na cidade até se transformar em gemido de desespero. Que se acorresse às armas mandou o Imperador, que se pegasse nelas e se desse combate à noite que vinha assim a interromper o dia fora das horas próprias e da ordem natural das coisas. Às armas, disse ao seu condestável, que se acorra às armas, que de cada um se faça um soldado, que se aguente a pé firme, que se invista, que se mate e que se morra, que se levante o povo. E o condestável aos seus sargentos: Vão! Levantem o povo, arranquem os lavradores da lavra, que a façam as mulheres, tirem às mães os filhos de que por baixo do nariz haja já uma sombra, se chorarem tirem-nos na mesma, se não chorarem amarrem-nos, que esses são os que fogem. E os lavradores pararam de lavrar, o peso da lavra caiu sobre as mulheres, ele todo. E as mães choraram com o medo espelhado nos olhos dos filhos adolescentes como flores cortadas antes de tempo a voz a engrossar com a pressa pois há pressa em acorrer ao combate. E os sinos tocavam a rebate, pregões atroavam no ar: Às armas. Corram às armas. Corriam os sargentos a juntar as milícias. Que nenhum homem válido fique em casa. E os inválidos sentiam a vergonha de nem para morrer os quererem. E os outros o medo. Corriam para espantar o medo. Que não fique ninguém nas oficinas da cidade, nas obras, nas vendas, corram, larguem os martelos, os cinzéis, as batas, gritavam os sargentos. E ninguém ficava, corriam, trocavam os instrumentos por outros, os da morte, formavam fileiras, punham um ar garboso para as namoradas os admirarem com o seu porte marcial, e as senhoras que acorriam às janelas a vê-los passar, de cima, admiravam-nos, calores secretos inflamavam-nas na presença dos que iam morrer. Corram, gritavam os sargentos para os amantes, e as raparigas ficavam sem par como se as deixassem a rodopiar uma valsa sozinhas, uma daquelas valsas solitárias das bailarinas de porcelana nas caixas de música. Dos bordéis do porto saltavam os clientes, expulsos pelos sargentos e pelas raparigas que já pagas se aliviavam assim do seu peso, das suas barrigas e do hálito a vinho barato, que a guerra não é só tristezas. Que parem de beber, gritava-se, e das tascas estremunhadas saíam em passo trôpego mais defensores do Império. O condestável olhou as suas tropas mergulhadas na penumbra, os mais gordos à frente, os lavradores com as mulheres nos campos por eles, os marceneiros com a ilusão de serem admirados pelo seu garbo, os adolescentes colhidos dos braços da mãe, os soldadinhos de chumbo, os alheios a isto tudo mas apanhados no sítio errado na altura errada, dispô-las em decúrias, em centúrias, em legiões, espalhou-as na planície antes banhada pelo Sol em ordem de batalha. E ordenou-lhes que gritassem, que exigissem ao Sol que se mostrasse, que saísse de por detrás da Lua, que deixasse de se esconder e os banhasse de luz e calor como era do seu direito. E gritaram, gritaram tanto que o Sol apareceu novamente, recolheu as asas e afastou as trevas. O Imperador reconhecido mandou empalar uns magos que ainda sobravam das anteriores levas. |
