Tuesday, October 04, 2005
Efeitos colaterais do iogurte de morango parte 3 (a que trata de sementes, penas, folhas secas, ventos solares e outras curas naturais)
| Era uma vez um corpo que se encolhia virado para o Sol. E o vento soprava sementes de dentes de leão por todo o universo. Não umas sementes de dente de leão quaisquer, ramalhudas e estreladinhas, mas umas de cores berrantes, outras prateadas e outras douradas. Levadas pelo vento as sementes de dente de leão voavam. E cobriam a Terra com o seu manto colorido. O corpo desdobrava-se na direcção do Sol, abria os braços para ele, inspirava o ar e com ele a energia toda do mundo, devagar. As sementes de dente de leão espiralavam para o Sol enquanto o corpo dilatava, enchia como um balão, pairava na atmosfera, via o cortejo das cores. Agora como a águia, no mesmo sítio, a saborear o vento sob as asas, o vento a acariciar as gotas de suor no peito. E as sementes chegaram ao Sol. Acharam que este era parecido com um enorme olho e sorriram-lhe. O Sol pegou-as nas mãos e soprou-as para a Terra, nas suas cores variadas. Umas caíram no mar e ficaram peixes, e outras nos cabelos dos anjos e ficaram pétalas de rosa, outras caíram em pomares e nunca se tinha visto tantas frutas e tão boas. Sobrou no fim só uma semente de dente de leão, uma de cor castanha. O Sol olhou para ela e sorriu, chamou-lhe folha do Outono e fê-la cair. O peito cheio de ar começou a esvaziar-se. Os dedos primeiro, depois a mão toda, o braço, a cabeça, o corpo todo encolheu-se, lentamente, como uma folha seca a viajar às costas da brisa leve. |

