Sunday, October 09, 2005

 

A casa do Pôr-do-Sol

Não, não é como a minha, branca, baixa, virada a Sul, rodeada de um murete rasteiro que mais que isolar convida a entrar.
Também não é como aquela que a natureza me destinou, que é gótica, de tons escuros e janelas ogivais, chaminés altas e contrafortes, recantos onde espreita a hera e de onde se espera a cada momento venha um bando de morcegos levantar voo.
É diferente, é a casa do Pôr-do-sol. Quando cheguei àquela parte da cidade já lá estava. Embora de dois andares é baixa, cerca-a uma rede e um jardinzinho de roseiras, às vezes gladíolos, depende da época.
Não conheço a casa por dentro. Por fora é em geral branca, mas em certas épocas do ano o Pôr-do-Sol pinta-a de vermelho, aquele vermelho alaranjado do Pôr-do-Sol quando dá nas casas brancas viradas a Ocidente.
Morava lá uma velhinha vestida de preto, que quando se chega a certa idade os lutos sucedem-se sem intervalo. Devia morar lá, pelo menos, todos os dias a via a cuidar do jardim, das rosas, dos gladíolos, regava, podava, fazia as coisas que as pessoas que costumam cuidar dos jardins costumam fazer.
As roseiras são uma questão de idade, não sei se quando era nova a casa tinha plantadas crianças a brincar no pátio que agora é jardim em vez de flores e se a velhinha que então era nova esperava alguém que chegava do trabalho ao entardecer.
A certa altura deixei de a ver, à velhinha, a casa ficou vazia com aquele ar desabitado que as casas desabitadas ganham por simpatia para com os que partem.
De vez em quando ainda lá vai, cada vez mais velhinha. Terá ido morar para um Lar.
Sei que a velhinha está viva porque os vidros da casa estão intactos e não há como as crianças e as pedras para saber bem se uma casa tem dono ou se morreu.
Os gladíolos nunca mais os vi, nem aquelas flores mais delicadas que precisam de água todos os dias. Mas as rosas ainda lá estão.
Enquanto vir as flores sei que a velhinha está lá ou noutro lado qualquer. Quando morrerem saberei que a velhinha desistiu do seu combate pelo jardim, partiu provavelmente para um jardim de pedras de que outros tomarão conta.
A casa por sua vez dará lugar a outra, também virada ao Pôr-do-Sol, avermelhada de vez em quando, talvez bonita, talvez feia, talvez com crianças a brincar em vez de flores no jardim, talvez com uma mulher no pátio à espera de um homem vindo pelo Pôr-do-Sol.

Comments:
Não é provável que chegue pelo nascer-do-sol?
 
... ou não desejas prestar declarações?
 
Não fui eu que inventei a expressão o anjo à janela do sol nascente,foi o Hugo Pratt.
Creio que é da "Fábula de Veneza" (Surat al Bunduqyia).
Anjos,nascer do Sol,casas brancas pintadas da cor da alma de quem lá mora,a alma das casas, das casinhas brancas com cheiro a Pôr do Sol, das casas góticas, com história, com passado, com mortes e vidas, nascimentos e passamentos, casas de quatro paredes, casas de cinco paredes viradas ao céu, com a forma do corte interior da maçã, estrelas que procuram refúgio no peito de raparigas alegres como pombas nos beirais das casas brancas pintadas pelo Pôr do Sol.
Ñão desejo prestar declarações.
Quero guardar na memória até que os vermes a corroam uma lágrima, um suspiro e um bolero lento.
 
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