Wednesday, October 12, 2005

 

Caracóis parte II

Manuscrito encontrado numa garrafa a boiar num rio perto de minha casa.

15 de Abril.
Não sei a hora, tive de vender o relógio para me manter abrigado, mas deve ser de tarde porque já acordei há muito e estou cheio de fome.

Continuo escondido na margem do rio, debaixo de uns amieiros.
Dizem-me que os caracóis são alérgicos à folha de amieiro e por isso não se lembrarão de me procurar aqui.
Desde que o cozinheiro louco se lembrou de dar cerveja a beber aos caracóis causando-lhes a mutação genética que infelizmente todos nós conhecemos que a humanidade se esconde onde pode para escapar ao seu apetite voraz.
Dentro das casas é impossível, é o primeiro lugar em que nos procuram.
Nem no mar nos deixam. Primeiro comprando passagens depois assaltando literalmente tudo o que é barco, houve pessoas que procuraram debalde refúgio no mar. Comidas por burriés gigantescos em espectáculos atrozes essas pessoas só demasiado tarde compreenderam que tinha feito a aposta errada.
Os que tomaram aviões acabaram por ter de aterrar para de imediato serem devorados ou por cair numa morte apesar de tudo preferível.
Os que fugiram para os túneis do Metro não tiveram melhor sorte. Infatigáveis os caracóis percorreram-nos e onde encontraram um humano preencheram-no com orégãos e devoraram-no.
Sempre insaciáveis em busca da cerveja percorreram o mundo, as férteis hortas, as ortogonais cidades, as sombras das florestas, os desertos. Tomaram conta das fábricas de cerveja e produzem-na agora em doses helicoidais, o que só lhes abre o apetite.
Não sei ainda quanto tempo irei resistir, sem comida, sem abrigo, agora que o Inverno se aproxima e o meu abrigo precário se torna cada vez menos suportável.
Escrevo esta na esperança de que ainda restem humanos com capacidade de resistir aos caracóis, esperança que dia a dia diminui, choro por mim e por todo o meu povo morto por causa da sua gula.

PS: Lá fora continua um dia lindo de Sol.

Comments:
Que não seja preciso resistires tanto tempo quanto a tua capacidade de o fazer...
 
Post a Comment

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?