Sunday, October 30, 2005
Adriano e o Faraó
Capítulo IV
Episódio II
Que está um pouco desgostosa da sua personagem, acha-a melada, não gosta de fado e muda de canal quando os filmes chegam a essa parte.
Pois não era para ele que estava a telefonar, mas para o outro que está à sua espera em Lisboa, que a vida são dois dias e há que aproveitá-la, estava a dizer-lhe a que horas a havia de ir esperar à Gare do Oriente.
Imagine-se o desespero do rapaz.
Mas não, o mundo não pode ser assim tão cruel. Prometi à rapariga que lhe punha um final feliz à sua maneira (qualquer coisa entre uma morte anónima no terramoto de 1755 e um casamento nos Jerónimos) e pedi-lhe que se mantivesse apaixonada pelo rapaz.
Farto desta coisa de rapariga e rapaz chamo-lhes António e Clara, o que me parece inegociável.
Clara chega de facto a Lisboa, à Gare do Oriente. Ninguém a espera, pelo menos ali, que em Aveiro há ávida uma alma que anseia pelo próximo fim-de-semana.
Só, parte de Metro para a sua residência de estudante, a casa de uma tia, irmã da mãe, cujo marido só tem olhos para ela (deixei isto assim de propósito para não lixar a vida ao tio).
Aliás mal o tio pôs o pé em ramo verde a nossa Clarinha explicou-lhe por a+b que tirasse o cavalo da chuva que estava a desbotar (um breve “o tio desculpe, mas não acha que está um pouco falho de exercício, sabe, essa gordura toda pode fazer-lhe mal ao coração…” foi suficiente).
O Tó, como lhe chama a mãe, viúva, que vive para ele, partiu para outra. Vida de atleta é dura. Muito treino, os músculos não deixam de doer, a gente é que já não liga, e o chicote do treinador, e a porra do jogo no Domingo que nos correu tão mal. Mas como treina duas vezes por dia a saudade só o magoa um bocadinho nos intervalos das peladas.
Capítulo IV
Episódio III
O campeonato da II B é duro, a gente vê na televisão o que fizeram ao Futre ou ao Van Basten, ou a tantos, tantos outros, mas a II B é basicamente aquilo em doses semanais.
Sarrafada. E um tipo ficando lesionado e imprestável para o futebol faz o quê?
Num momento sonha-se que na bancada está um olheiro do Benfica, no seguinte está-se no departamento médico com um brilhante futuro no passado e a voltar para a porra da aldeia de onde se fugiu pela força do chuto.
Mas nada disso preocupava o Tó na altura. Era correr para a bola e pensar na Clarinha. Era o lume brando da visão dela que lhe aquecia as noites de Inverno.
Aqui está uma coisa com que eu não concordo. Um autor mal intencionado intervinha neste momento e punha uma strip teaser de um bar de alterne que o Tó frequentava às escondidas quando a saudade apertava a formar com ele um triângulo naquelas partes em que o dois é um número perfeitamente respeitável, ou um gajo com um Porsche a explicar à moça que há mais na vida para além de jogadores de futebol, e a ganhar pelo mesmo 3/2 o jogo da vida deles.
E depois o mesmo autor malévolo separava-os ou coisa assim, ou com um dolus menos malus punha-os a viver uma vida dupla.
Não concordo mesmo, o Tó e a Clarinha têm todo o direito de se persuadir com a fugaz ilusão do amor e passar por uns meses de intensa paixão até que a vida os separe debaixo do mesmo tecto um a olhar pela janela e o outro pela televisão e a cuidar dos putos.
Mas isso não dá um romance.
Episódio II
Que está um pouco desgostosa da sua personagem, acha-a melada, não gosta de fado e muda de canal quando os filmes chegam a essa parte.
Pois não era para ele que estava a telefonar, mas para o outro que está à sua espera em Lisboa, que a vida são dois dias e há que aproveitá-la, estava a dizer-lhe a que horas a havia de ir esperar à Gare do Oriente.
Imagine-se o desespero do rapaz.
Mas não, o mundo não pode ser assim tão cruel. Prometi à rapariga que lhe punha um final feliz à sua maneira (qualquer coisa entre uma morte anónima no terramoto de 1755 e um casamento nos Jerónimos) e pedi-lhe que se mantivesse apaixonada pelo rapaz.
Farto desta coisa de rapariga e rapaz chamo-lhes António e Clara, o que me parece inegociável.
Clara chega de facto a Lisboa, à Gare do Oriente. Ninguém a espera, pelo menos ali, que em Aveiro há ávida uma alma que anseia pelo próximo fim-de-semana.
Só, parte de Metro para a sua residência de estudante, a casa de uma tia, irmã da mãe, cujo marido só tem olhos para ela (deixei isto assim de propósito para não lixar a vida ao tio).
Aliás mal o tio pôs o pé em ramo verde a nossa Clarinha explicou-lhe por a+b que tirasse o cavalo da chuva que estava a desbotar (um breve “o tio desculpe, mas não acha que está um pouco falho de exercício, sabe, essa gordura toda pode fazer-lhe mal ao coração…” foi suficiente).
O Tó, como lhe chama a mãe, viúva, que vive para ele, partiu para outra. Vida de atleta é dura. Muito treino, os músculos não deixam de doer, a gente é que já não liga, e o chicote do treinador, e a porra do jogo no Domingo que nos correu tão mal. Mas como treina duas vezes por dia a saudade só o magoa um bocadinho nos intervalos das peladas.
Capítulo IV
Episódio III
O campeonato da II B é duro, a gente vê na televisão o que fizeram ao Futre ou ao Van Basten, ou a tantos, tantos outros, mas a II B é basicamente aquilo em doses semanais.
Sarrafada. E um tipo ficando lesionado e imprestável para o futebol faz o quê?
Num momento sonha-se que na bancada está um olheiro do Benfica, no seguinte está-se no departamento médico com um brilhante futuro no passado e a voltar para a porra da aldeia de onde se fugiu pela força do chuto.
Mas nada disso preocupava o Tó na altura. Era correr para a bola e pensar na Clarinha. Era o lume brando da visão dela que lhe aquecia as noites de Inverno.
Aqui está uma coisa com que eu não concordo. Um autor mal intencionado intervinha neste momento e punha uma strip teaser de um bar de alterne que o Tó frequentava às escondidas quando a saudade apertava a formar com ele um triângulo naquelas partes em que o dois é um número perfeitamente respeitável, ou um gajo com um Porsche a explicar à moça que há mais na vida para além de jogadores de futebol, e a ganhar pelo mesmo 3/2 o jogo da vida deles.
E depois o mesmo autor malévolo separava-os ou coisa assim, ou com um dolus menos malus punha-os a viver uma vida dupla.
Não concordo mesmo, o Tó e a Clarinha têm todo o direito de se persuadir com a fugaz ilusão do amor e passar por uns meses de intensa paixão até que a vida os separe debaixo do mesmo tecto um a olhar pela janela e o outro pela televisão e a cuidar dos putos.
Mas isso não dá um romance.
Comments:
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O outro está em todo o lado.
À última não pode ir buscá-la porque teve de ir almoçar a casa dos pais da namorada.
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À última não pode ir buscá-la porque teve de ir almoçar a casa dos pais da namorada.
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