Saturday, October 29, 2005
Adriano e o Faraó
Capítulo IV
Recapitulando.
Episódio I
Vou num comboio, junto à janela.
Guimarães – Lisboa.
A ler um livro de Direito Penal, um daqueles temas recorrentes em direito penal, tipo o “Concurso Aparente” na versão de um autor que descobriu a pólvora.
O comboio pára em Aveiro e uma rapariga alta e morena intromete-se na minha leitura.
Visivelmente apaixonada por um rapaz de calções (devia ser futebolista, não pelos calções mas pelos gestos) despega-se dele pressionada pelo horário.
Entra no comboio e senta-se na cadeira em frente da minha.
Uma palavra de despedida ainda não dita acorre-lhe à mente e tenta dizer-lha (talvez um amo-te muito ou um não te esqueças de pagar a electricidade) freneticamente através do vidro duplo da janela do comboio que já só espera a sua palavra final para partir mas o vidro duplo é surdo e inquebrável. Tenta desesperadamente abrir a janela mas o comboio tem ar condicionado e as janelas não abrem (talvez para as pessoas não se poderem lançar à linha).
O comboio cansa-se e parte e a palavra final ficou no ar, cortada, saudosa.
Pouco depois a rapariga pega no telemóvel e fala (não tenho por hábito escutar as conversas dos outros e mesmo apurando o ouvido não conseguia).
Despede-se mais uma vez do rapaz. Diz-lhe o quanto o ama e as saudades que vai ter. Mais uma semana em Lisboa, longe dele. E como lhe sabe mal a comida sem o sal da sua presença, como o ar lhe parece reciclado, como os jardins se mostram em preto e branco…essas coisas da saudade.
Do outro lado ele recorda no tom de voz o toque suave do corpo dela, os lábios, o perfume, e diz isso tudo ao telemóvel que por sua vez o transmite ao telemóvel dela e este à própria.
O ar fica assim cheio de amor (melado para quem não for muito dado a esses estados de alma e muda de canal quando os filmes chegam a essa parte), daquele que faz os passarinhos cantar e os velhinhos ir presos.
Nessa altura a rapariga intervém.
Recapitulando.
Episódio I
Vou num comboio, junto à janela.
Guimarães – Lisboa.
A ler um livro de Direito Penal, um daqueles temas recorrentes em direito penal, tipo o “Concurso Aparente” na versão de um autor que descobriu a pólvora.
O comboio pára em Aveiro e uma rapariga alta e morena intromete-se na minha leitura.
Visivelmente apaixonada por um rapaz de calções (devia ser futebolista, não pelos calções mas pelos gestos) despega-se dele pressionada pelo horário.
Entra no comboio e senta-se na cadeira em frente da minha.
Uma palavra de despedida ainda não dita acorre-lhe à mente e tenta dizer-lha (talvez um amo-te muito ou um não te esqueças de pagar a electricidade) freneticamente através do vidro duplo da janela do comboio que já só espera a sua palavra final para partir mas o vidro duplo é surdo e inquebrável. Tenta desesperadamente abrir a janela mas o comboio tem ar condicionado e as janelas não abrem (talvez para as pessoas não se poderem lançar à linha).
O comboio cansa-se e parte e a palavra final ficou no ar, cortada, saudosa.
Pouco depois a rapariga pega no telemóvel e fala (não tenho por hábito escutar as conversas dos outros e mesmo apurando o ouvido não conseguia).
Despede-se mais uma vez do rapaz. Diz-lhe o quanto o ama e as saudades que vai ter. Mais uma semana em Lisboa, longe dele. E como lhe sabe mal a comida sem o sal da sua presença, como o ar lhe parece reciclado, como os jardins se mostram em preto e branco…essas coisas da saudade.
Do outro lado ele recorda no tom de voz o toque suave do corpo dela, os lábios, o perfume, e diz isso tudo ao telemóvel que por sua vez o transmite ao telemóvel dela e este à própria.
O ar fica assim cheio de amor (melado para quem não for muito dado a esses estados de alma e muda de canal quando os filmes chegam a essa parte), daquele que faz os passarinhos cantar e os velhinhos ir presos.
Nessa altura a rapariga intervém.