Friday, October 28, 2005

 

Adriano e o Faraó

Capítulo III
Imaginemos uma rapariga.

Começamos por descrevê-la. Para já uma daquelas provas da existência de Deus alta e morena.
Pego nela e levo-a para dentro do computador.

Claro que isto iria causar uma certa confusão lá em casa.
Eu sou uma pessoa conservadora.
A minha casa é tradicionalista (e tem rolo da massa).

É melhor começar assim: Invento um gajo, é por exemplo profissional de seguros.
Depois é que imagino a rapariga, mas pela boca dele, pela cabeça dele, pela imaginação dele.
Deste modo o problema do rolo da massa é transferido para a minha personagem masculina.

Depois é só identificar-me com essa personagem e ter acesso à tal rapariga.

É claro que o meu profissional de seguros não vai gostar.
E a rapariga se calhar também não.
E eu escrevo o tipo a sofrer por causa dela e ele escreve-me uma carta através do agente ou do advogado ou coisa assim a dizer-me:

“Caro autor:
Não estou de modo nenhum satisfeito com o papel que foi distribuído ao meu cliente.
Sugiro as seguintes alterações:
Eu é que fico com a miúda.
O livro fica incompleto porque o autor se atira para debaixo de um comboio.

Com os melhores cumprimentos.”

Por vingança ponho o tipo a ter mau hálito.

E o advogado da rapariga por sua vez:
“Caro autor:
Com vista a possibilitar a continuação da minha participação na sua obra venho fazer as seguintes sugestões:
No fim não fico nem com o autor nem com o profissional de seguros, parto de bicicleta em direcção ao sol poente em busca da minha alma gémea.
O autor atira-se para debaixo de um comboio.”

Por vingança ponho o tipo a ter mau hálito.

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