Thursday, October 27, 2005
Adriano e o Faraó
Capítulo II
César e Cleópatra.
Tendo no capítulo anterior optado pela versão em que penso logo existo (cogito ergo sum, afinal ao fim de várias tentativas acabei por passar a latim…), tentarei agora demonstrar que isso se passa com a generalidade das pessoas.
Das duas uma: ou sou eu que estou a fazer as outras pessoas pensar e, portanto, as respostas inteligentes que me dão são fruto da minha própria imaginação, o que me deixaria extremamente satisfeito por ter a capacidade de imaginar respostas brilhantes às minhas questões parvas.
Ou as outras pessoas pensam mesmo e as respostas brilhantes são mesmo delas.
Inclino-me a optar por esta segunda hipótese uma vez que a capacidade de diálogo tem os seus limites e uma pessoa dialogar consigo própria em muitas conversas simultâneas é engraçado como argumento de um filme mas é difícil de manter principalmente para quem já ouviu comentadores desportivos.
Ou, à maneira curta, a bola é redonda.
Assentando em que as pessoas pensam cada uma para seu lado (e que os diálogos a que assisto entusiasmado sobre se foi golo ou não foi são reais, têm uma existência para além da minha própria criação) será que isso se passa com uma personagem de ficção?
Ou seja, podemos imaginar uma Ana Karenine a revoltar-se contra Tolstoi e a ir para freira em vez de se atirar para debaixo de um comboio?
Ou o Frei Luís de Sousa a fazer um manguito ao Almeida Garrett e a atirar-se para debaixo de um comboio em vez de ir para frade?
Um Sindicato das personagens revoltadas com o destino que o autor lhes quis impor? Um D. Quixote vitorioso sobre os moinhos? Sancho Panza a protestar contra a secundariedade do seu papel?
César assassinou os conspiradores e Octávio fez Cleópatra sua rainha? Não. Não podiam fugir ao destino. Não foram personagens de ficção. Não era como nos filmes, suavam e quando suavam cheiravam mal.
Nos filmes as personagens só cheiram mal por metáfora. Vê-se as outras personagens a tapar o nariz mas não se sente o cheiro (de outra maneira não havia épicos sobre a idade média).
No entanto é perfeitamente possível para um poeta provençal comparar a sua Senhora a uma rosa (mas eu acho que os poetas provençais eram personagens de ficção eles próprios).
E se eu começasse a escrever e a descrever uma personagem tão perfeita que se revoltasse contra a forma como eu a escrevo e descrevo por não ser perfeita?
É como se Santo Anselmo se começasse a devorar a si próprio começando pelos pés, ou Bento de Espinosa (cujas afinidades com o Pato Donald serão abordadas no capítulo V, se lá chegar) visse a pena de ganso com que escreveu a “Ética” começar a grasnar contra si.
César e Cleópatra.
Tendo no capítulo anterior optado pela versão em que penso logo existo (cogito ergo sum, afinal ao fim de várias tentativas acabei por passar a latim…), tentarei agora demonstrar que isso se passa com a generalidade das pessoas.
Das duas uma: ou sou eu que estou a fazer as outras pessoas pensar e, portanto, as respostas inteligentes que me dão são fruto da minha própria imaginação, o que me deixaria extremamente satisfeito por ter a capacidade de imaginar respostas brilhantes às minhas questões parvas.
Ou as outras pessoas pensam mesmo e as respostas brilhantes são mesmo delas.
Inclino-me a optar por esta segunda hipótese uma vez que a capacidade de diálogo tem os seus limites e uma pessoa dialogar consigo própria em muitas conversas simultâneas é engraçado como argumento de um filme mas é difícil de manter principalmente para quem já ouviu comentadores desportivos.
Ou, à maneira curta, a bola é redonda.
Assentando em que as pessoas pensam cada uma para seu lado (e que os diálogos a que assisto entusiasmado sobre se foi golo ou não foi são reais, têm uma existência para além da minha própria criação) será que isso se passa com uma personagem de ficção?
Ou seja, podemos imaginar uma Ana Karenine a revoltar-se contra Tolstoi e a ir para freira em vez de se atirar para debaixo de um comboio?
Ou o Frei Luís de Sousa a fazer um manguito ao Almeida Garrett e a atirar-se para debaixo de um comboio em vez de ir para frade?
Um Sindicato das personagens revoltadas com o destino que o autor lhes quis impor? Um D. Quixote vitorioso sobre os moinhos? Sancho Panza a protestar contra a secundariedade do seu papel?
César assassinou os conspiradores e Octávio fez Cleópatra sua rainha? Não. Não podiam fugir ao destino. Não foram personagens de ficção. Não era como nos filmes, suavam e quando suavam cheiravam mal.
Nos filmes as personagens só cheiram mal por metáfora. Vê-se as outras personagens a tapar o nariz mas não se sente o cheiro (de outra maneira não havia épicos sobre a idade média).
No entanto é perfeitamente possível para um poeta provençal comparar a sua Senhora a uma rosa (mas eu acho que os poetas provençais eram personagens de ficção eles próprios).
E se eu começasse a escrever e a descrever uma personagem tão perfeita que se revoltasse contra a forma como eu a escrevo e descrevo por não ser perfeita?
É como se Santo Anselmo se começasse a devorar a si próprio começando pelos pés, ou Bento de Espinosa (cujas afinidades com o Pato Donald serão abordadas no capítulo V, se lá chegar) visse a pena de ganso com que escreveu a “Ética” começar a grasnar contra si.
Comments:
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Eu acho (por experiência própria) que as personagens são já um resultado da sua revolta contra os autores. Quem pode garantir-nos que Carlos e Maria Eduarda começaram por ser irmãos? Inclino-me mais para a hipótese de o ultra-romantismo de Maria Eduarda ter transformado Carlos num irmão... E o Eça não teve outro remédio.
É possível.
O mundo começa no encontro de dois irmãos, os do sangue real.
A vida é transgressão,porque é que uma personagem não pode transgredir as suas limitações escritas?
Mais duro que Eça Mário de Sá Carneiro desenha o amor de pai-filha. Será que foi empurrado pela natureza da personagem pai?
A natureza é transgressão.
Dentro do que é real podemos distinguir o que é realmente real e o que é realmente irreal, ou irrealmente real?
O mundo começa no encontro de dois irmãos, os do sangue real.
A vida é transgressão,porque é que uma personagem não pode transgredir as suas limitações escritas?
Mais duro que Eça Mário de Sá Carneiro desenha o amor de pai-filha. Será que foi empurrado pela natureza da personagem pai?
A natureza é transgressão.
Dentro do que é real podemos distinguir o que é realmente real e o que é realmente irreal, ou irrealmente real?
Pois é, estou ansiosa pelo capítulo V (dantes, quando andavamos na escola, era pelo canto IX que ansiavamos, agora já é pelo Pato Donald, sinal de maturidade...).
Quanto ao facto incontestável de as personagens serem auto-construções, apesar dos autores, e às vezes contra eles, há inúmeros exemplos. Apenas autores muito autoritários não permitem que isso aconteça, mas as personagens, sub-repticiamente, acabam sempre por dar-lhes a volta introduzindo-se no inconsciente deles. Claro que eles não dão por nada, Haverá sítio mais caótico e labiríntico que o inconsciente?! Que o inconsciente de um escritor?
Quanto ao facto incontestável de as personagens serem auto-construções, apesar dos autores, e às vezes contra eles, há inúmeros exemplos. Apenas autores muito autoritários não permitem que isso aconteça, mas as personagens, sub-repticiamente, acabam sempre por dar-lhes a volta introduzindo-se no inconsciente deles. Claro que eles não dão por nada, Haverá sítio mais caótico e labiríntico que o inconsciente?! Que o inconsciente de um escritor?
Era o Alexandre Dumas que criava tantas personagens que para não se esquecer delas fazia uns bonecos a representá-las para nãoi se esquecer delas?
E que quando matava alguma deitava o boneco ao chão?
E depois vinha a empregada limpar e deitava uns ao chão e ressuscitava outros?
E é à empregada que se deve esse monumento ao non sense que é o "Conde de Monte Cristo"?
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E que quando matava alguma deitava o boneco ao chão?
E depois vinha a empregada limpar e deitava uns ao chão e ressuscitava outros?
E é à empregada que se deve esse monumento ao non sense que é o "Conde de Monte Cristo"?
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