Wednesday, October 26, 2005

 

Adriano e o Faraó

Capítulo I
Episódio III

O Pedro.

Não que ficasse propriamente surpreendido, o gajo era um génio. Assim para o deprimido mas um génio. Deu-se ao trabalho de nos fotografar num romance.

Comprei o livro sofregamente, como se fosse acabar e eu não chegasse a lê-lo, o que tornaria grande parte da minha vida sem sentido, é como se nunca tivesse saído o Chicago V ou o Napoleão não tivesse invadido a Rússia, a história teria sido diferente.

Por mim fiquei preso. Engaiolado num romance, perdi o meu passado, perdi a identidade, passei a ser uma personagem de ficção.

E na realidade temos a certeza de existir? Penso portanto existo? E se eu for um boneco de banda desenhada que o autor desenhou a pensar?
Isso tenho a certeza de não ser. Não penso sempre da mesma maneira e os bonecos de banda desenhada estão sempre a ter a mesma ideia sublinhada por uma lâmpada num balão de fumo, ou assumem sempre uma postura esculpida por Rodin.
Esse impressionismo da banda desenhada é incompatível com a alma humana. Não se a pode desenhar senão no passado, num passado congelado na arca das ideias.
Portanto: penso logo não sou uma personagem de banda desenhada.

Mas se se tratar de um filme de animação?
O autor pode pôr-me a pensar e a continuar a pensar. Pode dar-me a ilusão da liberdade de pensar quando ele pensa por mim, e faz correr o meu pensamento a galope, a trote, a passo com um golpe de calcanhares.

Temos de admitir que o argumento que leva a afastar a possibilidade de eu ser um personagem de banda desenhada não é aplicável à possibilidade de eu ser antes um boneco animado.

Contudo uma versão mais sofisticada do mesmo argumento dá mais que fazer:
Um filme de desenhos animados quando acaba volta ao princípio. As mesmas lágrimas e os mesmos risos repetem-se na mesma sucessão.
Ou eu não dei por nada ou então engordei nos últimos anos, o que leva a concluir ter havido uma evolução na minha vida e não uma mera repetição.
De qualquer modo poder-se-ia dizer: Mas o filme ainda não acabou, ou “Já passaste por isto mas não te lembras”.

Quanto ao filme não ter acabado era preciso que o desenhador fosse muito rápido. Quanto tempo leva a desenhar um movimento da minha mão sobre as teclas do processador de texto? Ou a desenhar no cérebro o pensamento que acabei de escrever?

A minha falta de memória, por outro lado, é notória, com sorte é só arteriosclerose. Mas daí a não me lembrar de uma vida toda?

Não me parecendo totalmente de afastar a ideia de eu não passar de uma personagem de um filme de desenhos animados francamente não creio nela. É uma questão de fé, não tenho nada contra o Pato Donald, mas não me revejo no seu sistema de ideias (quác!).

Mas a questão de fundo não é a da minha identidade. O facto de pensar leva-me a concluir para efeitos práticos que existo como ser autónomo e não como produto da imaginação de um autor literário.
Mas a liberdade de pensar? Ficará ela afectada pela minha nova qualidade de personagem literária?
Lá que penso penso, mas penso o que quero?

Comments:
A maior parte do tempo somos pensados por uma personagem que criámos e que pensamos que somos nós. Assim sendo, onde estamos nós e onde estão os nossos pensamentos reais? Sob muito, muito pó, muito magma, muita lama, muito nevoeiro, muita poluição, muito fumo, muito ruído, muitas folhas secas. É por isso que me sinto sempre bem a fazer a limpeza e depois da limpeza. Detergentes, lixívia, limpa-vidros, são os meus metais de alquimista da matéria. Do pensamento. Agora tenho que ir ali limpar um vidro um bocado manchado pelas patas de pó do meu pensamento. Fica aqui a escrever a tua história que já volto em busca de mais um episódio.
 
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