Monday, October 24, 2005

 

Adriano e o Faraó

Capítulo I
Episódio I

Nessa altura eu tinha 15 anos e andava pensativo sobre a temática do sexo.
Bom, não valeria a pena dizer isto se se tratasse apenas daquela atitude normal nos rapazes de 15 anos, aquela idade em que naturalmente até a Tocata e Fuga em Ré menor se nos apresenta com alguma sensualidade.

Com efeito essa ainda não era ainda a idade própria para descobrir que as mulheres não foram criadas pelo seu criador em duas dimensões e em papel couché (estávamos em 1970) e que o interior da boca feminina tem uma suavidade que essa sim lembra Bach.

Era mais uma questão metafísica. Wagneriana. Fórmulas do amor cortês da poesia medieval. O sentido da vida, etc.

Por esses dias fui libertado do colégio interno em que estudava até aí e remetido para a sociedade civil com os seus perigos e tentações: Não era proibido fumar, podia usar-se roupas de cores diferentes uns dos outros, podia faltar-se às aulas sem que nos cortassem o cabelo à escovinha ou nos prendessem por um fim-de-semana. Enfim, uma balda.

Foi também naquele tempo que travei conhecimento com o Latim. Travei é o termo. E da melhor maneira possível que é estudando a língua.

O Latim como é uma língua morta tem vantagens e inconvenientes, sendo a vantagem o facto de não se queixar de ser quotidianamente assassinado em várias línguas e latitudes. Não se importa, já não lhe diz respeito, não há sociedades para a defesa da boa pronúncia do Latim. Aliás acho que não se sabe mesmo ao certo como é que se pronunciava (se é que alguém para além de Cícero chegou a pronunciar aquela coisa, ou pelo menos dois romanos coevos estiveram alguma vez de acordo em como é que aquilo se pronunciava).

A desvantagem é que como língua morta não é útil para meter conversa com estrangeiras, pelo que o seu interesse prático é naturalmente limitado.

Para nos iniciar nos mistérios da Eneida um professor já idoso. A sua indiscutível sapiência só era equiparável à sua pouca apetência didáctica.

Eu pelo menos estou em crer que era isso, não nos apetecia. No princípio do ano acantonámos as coortes em acampamentos de Inverno, escavámos latrinas, ensarilhámos os pila, montámos tendas como César e aí pela Primavera estávamos quase todos chumbados, ora por faltas ora por desistência.

O que nos permitiu obter horas de ganho em que nos sentávamos à mesa de um simpático café que ainda há por detrás do Convento de Jesus e aprendíamos filosofia uns com os outros, de uma maneira pouco escolástica.

Em geral as discussões à portuguesa são organizadas de maneira a que cada um demonstre para si próprio que os outros são burros, ou que pelo menos estão enganados.

Não era o caso. Sob o olhar meio amável meio desconfiado do Sr. Adriano, que servia os cafés apenas por ser o proprietário do estabelecimento e não porque qualquer ordem do destino o tivesse designado tabelião dos discursos, falávamos mesmo para ouvir os outros.

Comments:
Mal acabo de ler o primeiro episódio e já espero os próximos como em menina esperava a banda-desenhada do jornal...
 
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