Thursday, September 29, 2005
A oratória “A Paixão Segundo S.Mateus” de JS Bach.
A mãe do mundo morreu de parto, este teve de crescer sozinho entregue a si próprio. No entanto como se fora um exposto deixaram-lhe na roupa em que o envolveram um monograma com as suas iniciais e outros indícios da pertença de família. Entre esses indícios sem dúvida a marca de Bach, que é como que uma espécie de marca de Caim, indelével, uma maldição rendida ao eterno. Tudo isso tem talvez a haver com o facto de Bach, como aliás Mozart, Goethe, Schubert e Mário de Sá Carneiro, entre outros, serem extraterrestres enviados ao planeta Terra pelo supervisor para a paixão do sector da Via Láctea. Foi assim: O Supervisor para a Paixão escutava atentamente os sons provindos do sistema solar, e desde há uns anos que vinha observando com atenção pelo menos dois planetas, Júpiter e a Terra. Quando se iniciaram as experiências musicais, sensivelmente ao mesmo tempo em ambos os planetas, estas divergiram de maneira radical. Em Júpiter tentou-se bater palmas como forma de produzir som. O princípio é correcto mas devido à forte densidade atmosférica do planeta não se ouvia nada. Os jovianos batiam as mãos umas nas outras, com afinco, com esmero, com paixão, mas não conseguiam produzir qualquer som. Apesar de algumas correntes minoritárias defenderem posições mais radicais o som parece ser um elemento pelo menos muito importante na música. Tentaram os jovianos bater com os pés no chão mas este era mole e também não se ouvia nada. Houve até um rapaz que inventou uma coisa esquisitíssima: Um aro de madeira no qual se esticava uma pele de animal. Batia-se-lhe com um pau e obtinha-se, desta vez sim, sons. Claro que uma estupidez destas não podia pegar e além disso os Jovianos gostavam mesmo era de silêncio, pelo que cessaram as iniciativas musicais. O agente MT 4 remetido para Júpiter pelo Supervisor foi queimado numa fogueira por ter feito barulho fora de horas. Na Terra a história é mais ou menos conhecida. Houve bateres de pés no chão, concertinas, búzios, gritos, trompas canoras e belicosas, S. Gregório, Palestrina, Monteverdi, etc. No entanto o Supervisor para a Paixão achava aquilo chato, faltava-lhe paixão, aquela coisa que faz andar os comboios eléctricos da alma. Chamou um dos melhores músicos do seu staff, o agente JSB, e disse-lhe: «Ouve lá, trocas a imortalidade pela possibilidade de ir tocar órgão e compor para uma igrejinha de província? Trata-se de tornar a Terra menos chata, uma vez que Júpiter é um caso perdido.» JSB foi para casa, dormiu sobre o assunto. Ou antes não dormiu. Como é que se pode dormir quando se tem uma vida toda de imortalidade para resolver num momento (embora o Supervisor não tivesse marcado prazo JSB não gostava de protelar, até porque o inevitável tem uma certa tendência para acontecer). No dia seguinte disse à mulher que ia comprar tabaco, foi ter com o supervisor, tomou a nave das 16h00 e nasceu na Terra sob forma humana. Depois foi o que se ouviu. A Conspiração Permanente dos Chatos reuniu-se, no entanto, de imediato a fim de tomar contra-medidas. A Terra é e será um sítio chato era o seu lema. O renascimento passara-lhes ao lado, não tinham lido Espinoza, mesmo que soubessem ler não queriam saber. A paixão, o riso, a poesia, a música, o sonho, tudo isso era lixo, desperdício de tempo que de outro modo podia ser usado para fins úteis, tais como lançar papagaios de papel cinzentos armados de esfregonas e detergente de forma a tentar limpar o céu de estrelas. «Esse gajo há de compor muita coisa para ficar no baú. E quando morrer há de ser esquecido.» Os serviços de supervisão ofereceram a JSB um relógio de ouro e uma caneta de tinta permanente quando se retirou como reconhecimento pelos serviços prestados mas a praga rogada pela Conspiração Permanente dos Chatos pegou, JSB andou esquecido dentro de um baú durante cerca de 100 anos. Praga de chato é assim, pega logo, ao contrário do meu carro e dos remédios contra a tosse. O Supervisor contra atacou. Desta vez mandou agentes mais precoces. Primeiro o Wolfgang Gottlieb Mozart. Depois o Félix Mendelsohn. Este é que veio desenterrar o agente JSB do baú em que o tinham enfiado. E dada a curta duração dos agentes quando expostos ao clima terrestre (veja-se o WGM e o FS – na Terra conhecido como Franz Schubert) o Supervisor foi mandando outros, Goethe, Mário de Sá Carneiro, Lautréamont (estes dois também não se destacaram pela longevidade) e outros. Desde essa altura o planeta terra tem-se tornado menos chato. Há mesmo que se atreva a defender que a Terra é redonda (pelo menos vista do espaço parece). Claro que há altos e baixos, a Conspiração Permanente dos Chatos conseguiu que a execução de obras de Mendelsohn chegasse a ser proibida numa época complicada do século XX. Mas a racionalidade voltou a imperar e a Paixão retomou o seu lugar, mantendo o Supervisor satisfeito. |