Tuesday, September 27, 2005
Natureza Morta
| Os Mortos, os Vivos e os Assim-Assim. Foque o leitor o olhar na pintura que lhe apresento: De uma taça de barro discreta saltam frutas variadas, gordas, coloridas. Em tons de encarnado baço ou amarelo baço, acompanhadas de raminhos em tons de verde-escuro. Distingue-se vagamente que o conjunto assenta sobre uma mesa, mas esta perde-se na penumbra. A iluminação fará Vexa o favor de a compor. Dir-se-ia que é uma natureza morta. O efeito também resulta com flores ou legumes (há combinações fascinantes de rabanetes e bróculos). Todas as peças expostas estão em princípio mortas. As frutas, as flores, os legumes, foram arrancados da terra, cortados das árvores, decepados, retirados do meio que lhes suportava a vida. Foram mortos para acabarem expostos na tela de um pintor. A Taça por sua vez não é das coisas mais vivas que temos visto. Não é como uma seara ondulante ao sabor da brisa ligeira ou uma árvore a dançar inclinada numa posição angustiante comandada por um vendaval que brota das mãos de van Gogh, ou mesmo um peixinho a nadar ingénuo no fundo de um aquário de loiça. Para encontrar vida naquilo temos de recuar no tempo. Temos de recuar até ao tempo em que as maçãs da pintura embelezavam orgulhosas os ramos da macieira e as margaridas eram as favoritas do canteiro. Ou ao tempo em que o oleiro rodava o barro que iria dar origem à taça, o ungia de água que é o óleo santo do oleiro e do barro, o que os une, lhe dava a forma a partir do pó. Ou ao tempo, apesar de tudo posterior, em que o pintor montava, desenhava, pintava o quadro que estamos agora a ver. Se quisermos ser exaustivos temos de ver fabricar os pincéis, a tela e as tintas, seguir uma espécie de passado divergente. Seguir a história de cada um dos elementos presentes na natureza morta, seguir a história de cada um dos evidentemente ausentes. Seguir as histórias divergentes de cada um dos elementos consoante se trate de pintura a óleo ou não, sobre tela ou sobre madeira ou outro material, conforme tenhamos pintado maçãs ou laranjas na nossa imaginação, multiplicar o passado, enriquecê-lo. Criar o passado e assim criar um presente diferente conforme o nosso estado de espírito. Está um daqueles dias azuis de saudade e nós pintamos violetas na imaginação. Ou um dia vermelho de afecto correspondido e é a maçã que domina a nossa pintura. Criar um futuro. Numa versão cor-de-rosa a fruteira esconde um subreptício microfone, duas pessoas aproximam-se como se fossem escolher uma peça de fruta e murmuram coisas que não sabe que estamos a ouvir. E essas conversas criamo-las nós. Ou esconde a áspide libertadora por que Cleópatra anseia, traída, derrotada, morta antes mesmo que a sua natureza o esteja. Ora foque o leitor o olhar na pintura que lhe apresento, veja se tem semelhanças com a sua, veja se o nome de Natureza Morta lhe assenta, se não tiver pinte-a de outras cores. Mais sombrias, mais matinais, mais frescas, a gosto. |
Comments:
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Vejo, meu amigo JC, que continuas a fazer magia com as palavras, alta magia, assim transformando naturezas mortas em naturezas vivas. Por mim, escolho a romã e com ela me salvo.
risocordetejo
risocordetejo
A romã, a romã…
Romana, como as tangerinas são tangerinas ou os alperces persas.
Noutras partes são Granadas, como Granada e o Pátio dos Leões, em que a água corre em fios de sons delicados.
Granadas, como bolinhas más e mesquinhas que se desfazem e desfazem corpos com elas.
Mas a romã é um fruto pacífico, só vai para a guerra quando a obrigam.
Não é como a maçã o cruzamento da Rosa com a Estrela.
Imagina uma coluna de água de um chafariz (ou de ar, que é menos visível) e uma bola de ping-pong equilibrada no topo.
Assim vive a Romã.
Em equilíbrio.
Por fora a força da casca dura, grossa, a afastar intrusos. Por dentro a doçura das pedras preciosas que adornam os sabores dos colos femininos.
Em equilíbrio.
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Romana, como as tangerinas são tangerinas ou os alperces persas.
Noutras partes são Granadas, como Granada e o Pátio dos Leões, em que a água corre em fios de sons delicados.
Granadas, como bolinhas más e mesquinhas que se desfazem e desfazem corpos com elas.
Mas a romã é um fruto pacífico, só vai para a guerra quando a obrigam.
Não é como a maçã o cruzamento da Rosa com a Estrela.
Imagina uma coluna de água de um chafariz (ou de ar, que é menos visível) e uma bola de ping-pong equilibrada no topo.
Assim vive a Romã.
Em equilíbrio.
Por fora a força da casca dura, grossa, a afastar intrusos. Por dentro a doçura das pedras preciosas que adornam os sabores dos colos femininos.
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