Friday, September 30, 2005

 

Acordo de madrugada

«E depois, à noite, quando desperto, vou pintar...»

Acordo de madrugada. Sem razão, sem ser por nada, apenas com a claridade.
Dentro de mim Michael Brecker sopra uma balada, límpida, clara, tão solitária como eu.
Um copo de leite, talvez, é tarde para fazer café, não quero acordar os restantes utentes da minha vida.

Uma guitarra como um desejo de acompanhar o saxofone. Volto-me antes para a leitura.
Um livro sobre genética, um número atrasado e ainda não lido da Newseek?

Para Espinoza é cedo.

Pego na revista, fixo nela o meu olhar e deixo o pensamento deambular pela balada.

Uma balada em lá menor, quente, de um castanho límpido e acariciante. O silêncio em lá menor.

O silêncio, a via. A morte e a vida dançam uma valsa silenciosa, abraçadas como duas pessoas que já conhecem os aconchegos suaves do corpo da outra.
O silêncio. Ouvir o bater das asas da alma enquanto esta paira sob a lua, a cidade em baixo, adormecida calada.
O silêncio, a vida que já foi, a que há de vir?
O silêncio instala-se no aqui mesmo, chama-me com a sua voz muda e sussurra-me poemas que só entendo quando volto a adormecer.

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